Rondônia - 13 de dezembro de 2018
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Venenos viciantes no supermercado

venenos-viciantes-no-supermercadoDesde que colocou o ponto final no livro Sal Açúcar Gordura – Como a Indústria Alimentícia nos Fisgou (Editora Intrínseca), o jornalista investigativo americano Michael Moss nunca mais fez compras do mesmo jeito. E clama para que o mundo inteiro siga seu exemplo: não se deixe seduzir por slogans imperativos, desconfie do que lê nas embalagens e pense duas, três, quatro vezes antes de botar um produto industrializado no carrinho. Para ele, temos de pensar no supermercado como um campo minado. Isso mesmo. Só assim o consumidor pode escapar dele sem prejuízos à saúde.

A conclusão de Moss, que atua no The New York Times e já venceu o prêmio Pulitzer, vem depois de um trabalho de detetive nos bastidores da indústria de junk food (termo em inglês para comida de baixa qualidade nutricional). Foram quatro anos de entrevistas com mais de 300 ex-funcionários de alguns dos maiores conglomerados do setor. Boa parte deles, diga-se, nunca ingeriu a comida que ajudou a fabricar. “Não bebo refrigerante”, admite um dos executivos de uma grande companhia americana que produz bebidas gaseificadas.

Moss ainda procurou cientistas para entender melhor como a fórmula dos alimentos altamente processados engana nosso organismo e nos faz comer mais, mais e mais. Um PhD em Ciências dos Alimentos ouvido para o livro explica que, se um salgadinho derrete depressa na boca, por exemplo, o cérebro entende que não há calorias sendo ingeridas e, portanto, não corta a ordem para o sujeito parar de comer. Eis um dos ingredientes da epidemia de obesidade, que, longe de ficar restrita aos Estados Unidos, se espalha pelo Brasil.

Com base no seu levantamento, Moss riscou as guloseimas do cardápio da família e passou a dar mais valor aos alimentos naturais — como prega qualquer dieta mais sensata. “Os produtos industrializados podem ter sal, açúcar e gordura, mas somos nós que temos o poder de decidir o que comprar e quanto comer”, analisa.

Confira a entrevista com o jornalista que virou o terror da indústria de junk food.

SAÚDE: Sal, açúcar ou gordura. Qual dos três é o mais nocivo à saúde?

Michael Moss: Difícil dizer. É por isso que, no título do meu livro, não há vírgulas — é apenas “Sal Açúcar Gordura”. Pude constatar que os três ingredientes formam uma espécie de trindade profana que a indústria de alimentos processados utiliza para fazer produtos de baixo custo, convenientes e irresistíveis. Passei a maior parte do livro falando sobre o açúcar, porque sua presença é marcante na formação das dietas infantis e, certamente, há um número crescente de médicos e cientistas que o veem como algo extremamente problemático tanto para crianças quanto para adultos.

SAÚDE: Ao longo de quatro anos, você entrevistou mais de 300 ex-funcionários da indústria alimentícia. Dos truques usados por eles para convencer o consumidor a ingerir mais alimentos processados, qual é o mais sujo e escabroso?

Michael Moss: Em primeiro lugar, eles não consomem o que fabricam porque sabem que não resistirão aos excessos. Em segundo lugar, por já estarem viciados em usar grandes quantidades de sal, açúcar e gordura, querem nos viciar também. Bem, não são exatamente truques sujos, mas táticas agressivas que, neste caso, envolvem alimentos, algo que, você há de concordar, ou nos torna pessoas saudáveis ou nos deixa doentes. No caso de alguns refrigerantes, por exemplo, a companhia sabe que, se as crianças estiverem com uma garrafa nas mãos em um momento especialmente fantástico da vida delas, elas serão leais à marca para sempre. Bem, não chega a ser um truque sujo, volto a dizer, mas é uma estratégia de mercado realmente eficaz.

SAÚDE: Você conseguiu persuadir alguns fabricantes a produzir amostras de seus produtos com menos quantidade de sal, açúcar e gordura. É verdade que, sem sal, alguns tipos de cereal matinal, por exemplo, ficam parecendo papelão?

Michael Moss: É verdade, sim. Eu diria que foi uma experiência gastronômica horrível! Para mostrar a importância do sal, eles me prepararam três amostras completamente insossas: um cracker que não consegui sequer engolir porque ficou preso no céu da boca, um waffle que saiu da torradeira com gosto e aparência de palha e um cereal de flocos de milho que tinha sabor metálico. O objetivo deles era mostrar porque precisam adicionar tanto sal em seus produtos.

SAÚDE: Ao ler seu livro, fica a impressão de que, muitas vezes, a indústria de alimentos recorre aos mesmos artifícios que a do tabaco para viciar seus usuários. Isso procede?

Michael Moss: Durante os anos 1980 e 1990, a Philip Morris emprestou algumas de suas ferramentas de marketing para sua divisão de alimentos, a Kraft. A certa altura, chegou a comercializar seus produtos em lojas de conveniência, o mesmo ponto de venda dos cigarros. Mas, por incrível que pareça, nos anos 2000, a Philip Morris avisou aos gestores da Kraft que, se não fizessem alguma coisa, teriam os mesmos problemas em relação à obesidade que a companhia de tabaco estava tendo em relação ao câncer. Na ocasião, a empresa chegou a pedir que a Kraft reduzisse sua dependência de gordura, açúcar e sal para evitar problemas. Bem, esse é um daqueles momentos em que podemos garantir que os gigantes da alimentação têm plena noção de sua parcela de culpa na crise de saúde alimentar que estamos vivendo.

SAÚDE: Por falar em obesidade, os Estados Unidos ordenaram, em junho deste ano, a retirada de alimentos com gordura trans do mercado no prazo máximo de três anos. O que achou da decisão?

Michael Moss: A decisão me parece boa. Afinal, está provado cientificamente que gorduras trans são prejudiciais à saúde e provocam milhares de mortes todos os anos. A ciência dos alimentos é capaz de encontrar alternativas que, além de permitir que os produtos continuem saborosos, eles não representem um risco tão grande à população. No entanto, é importante destacar que a retirada da gordura trans é apenas um aspecto da alimentação saudável. Mesmo quando são feitas com gordura boa, guloseimas recheadas de creme ou cobertas por chocolate ainda estão carregadas de açúcar e calorias.

SAÚDE: Você acredita que, depois de ler seu livro, o leitor vai repensar alguns de seus hábitos alimentares?

Michael Moss: Espero que sim. No livro, revelo todos os truques usados pelos gigantes da alimentação para fazer com que nós, consumidores, não só gostemos de seus produtos, mas que venhamos a consumi-los sempre mais e mais. Ao fazer isso, espero que meu livro ajude a equilibrar o jogo a nosso favor. Hoje em dia, consigo fazer compras no supermercado e rir de toda a manipulação imposta pelos gigantes da alimentação. Isso me ajuda a não ser manipulado por eles.

SAÚDE: Mas há quem diga que não consegue viver sem junk food. O que você diria a essas pessoas?

Michael Moss: De fato, alguns indivíduos estão tão condicionados a comer demais esses alimentos que, no caso, o melhor a fazer é fugir deles mesmo. Mas acho que, na maioria das vezes, podemos achar um ponto de equilíbrio. Essa é a estratégia que uso em casa, com minha família. Não deixei de comer batata frita, por exemplo. Mas, quando abro o pacote, lembro imediatamente da pesquisa que fiz e, em vez de devorar tudo de uma vez, me contento em comer apenas umas cinco ou seis. O curioso é que, ao ingerir cada vez menos comida industrializada, passei a valorizar cada vez mais o sabor e a aparência de alimentos saudáveis, como cenoura, rúcula e brócolis.