Rondônia - 21 de outubro de 2018
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O tragicômico fim de Eduardo Cunha

Antigos aliados agora querem sua saída

Por Rennan Martins | Vila Velha, 20/11/2015 – Os que ontem assistiram os acontecimentos na Câmara notaram que, definitivamente, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se vê em seus últimos dias a frente da presidência. Sem qualquer pudor em instrumentalizar a mesa diretora, Cunha manobrou com aliados para anular a reunião do Conselho de Ética que apresentaria o parecer do deputado relator Fausto Pinato (PRB-SP), pela continuidade do processo de cassação do seu mandato.

A estratégia era simples e fazia uso, como de costume, do regimento interno em benefício próprio. Cunha iniciou a ordem do dia com somente 189 deputados registrados em plenário – sendo 257 o número mínimo de parlamentares necessário para deliberações – e com mais de uma hora de antecedência que o habitual. Eis então que surgiram Hugo Motta (PMDB-PB), Jovair Arantes (PTB-GO) e Eduardo da Fonte (PP-PE) solicitando a presidência que comunicasse as comissões o encerramento dos trabalhos, tendo em vista que aberta a ordem do dia estas são inviabilizadas. “Já determinei. Qualquer decisão é nula.”, respondeu Cunha, achando mesmo que submeteria o plenário aos seus interesses.

A reação foi imediata. Mais de cem deputados se rebelaram contra a escandalosa manobra, esvaziando o plenário e se dirigindo a reunião do Conselho de Ética aos gritos de “Fora Cunha”, questionando ainda sua legitimidade nos microfones. Ao ver a votação inviabilizada por falta de quórum e a degradação de sua autoridade, Cunha suspendeu a anulação da reunião do Conselho de Ética. Esta, no entanto, poderá ser declarada nula outra vez caso a questão de ordem apresentada por André Moura (PSC-SE) seja acolhida pelo vice-presidente da Casa, Felipe Bornier (PSD-RJ), o que não surpreenderia, visto que Moura e Bornier são alinhadíssimos ao peemedebista.

A natureza do poder e as razões da queda

Ainda no começo do ano, mais precisamente no dia dois de abril, publiquei artigo em que expunha a arrogância de Eduardo Cunha, então em alta. Há oito meses o deputado já fazia uso rotineiro de manobras e autoritarismo para fazer avançar sua pauta. Á época, assim discorri:

Como cristão que se declara, o deputado deveria atentar aos ensinamentos de Salomão que constam no livro de Provérbios, que no capítulo 16, versículo 18, alerta que ‘A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.’”

Alguns talvez acreditem que Cunha cairá por seu alto nível de corrupção, mas não se trata disso. Enquanto mero achacador de bastidores o deputado seguia sossegado, bastando defender os interesses da banca com afinco para receber em troca a blindagem da imprensa corporativa. Ocorre que para assumir a terceira posição na linha de poder de uma república do porte do Brasil, é preciso mais que esperteza e falta de escrúpulos.

O poder é algo que deve ser usado sabiamente. Uma estratégia política de longo prazo precisa calcular precisamente cada ação, atentando para que no balanço geral elas acumulem mais que desgastem o poder que se dispõe. O uso de expedientes autoritários e em proveito particular, quando reiterado, contribui para a rápida deterioração de qualquer liderança.

O moribundo presidente da Câmara, do alto de sua prepotência, julgou que bastava se valer de chantagens e ameaças para se manter incólume. Caso tivesse lido Maquiavel saberia que é preciso ser temido, mas que há uma linha vermelha que não se cruza, e esta é a do ódio. Quando se usa do poder de forma tirânica sistematicamente, os liderados/governados deixam de temer, passando a odiar o príncipe, o que desencadeia a união dos últimos pela derrubada do tirano.

Sua megalomania também influenciou em outra postura contraproducente. O deputado simplesmente não sabe responder a ataques de outra forma que não dobrando a aposta. Tal conduta o leva a atitudes de arroubo como quando prestou entrevistas expondo toda sua estratégia de defesa aos meios de comunicação, o que abriu caminho para ser prontamente desconstruído por meio da farta documentação comprobatória de seus mal feitos.

Eis, então, as razões da degradação de seu poder e legitimidade. Ou alguém acha que se Cunha tivesse permanecido nos bastidores do baixo clero teria atraído a atenção da justiça? Certamente não. O caráter classista de nosso judiciário, aliado a antiga blindagem de que dispunha, impediria.

A dimensão cômica desta história de ascensão e queda se deve ao fato de que foi justamente a debandada dos demotucanos – aqueles com quem mais se identificava em termos ideológicos – que engrossou o caldo pela sua saída.

Cunha entrará para a história como líder de uma das gestões mais retrógradas e vendidas da Câmara. Viremos logo esta página, para o bem do país.

Fonte: Desenvolvimentistas.com.br