Rondônia - 21 de setembro de 2018
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O #ForaCunha embaralha o jogo do impeachment nas redes sociais

O ForaCunha embaralha o jogo do impeachment nas redes sociaisA palavra impeachment está na boca das pessoas desde que a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita por uma estreita margem em 2014: 51,64% dos votos ou 3,4 milhões a mais que o candidato tucano Aécio Neves. Desde então, o vocábulo está flutuando na nuvem das redes sociais. Do começo do ano até está semana, contudo, o uso do termo, excetuando picos pontuais, havia arrefecido. Depois de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciar que aceitaria um pedido de impeachment, o assunto explodiu.

A pedido do EL PAIS, Fábio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), fez um levantamento de tweets entre 1 e 3 dezembro (até 13h). O resultado é que o termo apareceu 311.874 vezes, mobilizando 11.9753 perfis. Como comparação, entre 1 e 8 de novembro foram cerca de 24 mil ocorrências.

“O que mais chama atenção é que ao analisar a rede de compartilhamentos de tweets, identifiquei diferentes comunidades, o que rompe o frequente binarismo que marca a discussão nas redes sociais sobre política institucional brasileira”, diz Malini. Um bom indicador de que campanhas estão ganhando muita adesão no Twitter é o intenso uso de hashtags. Coisa que não aconteceu até agora. Uma explicação possível para isso é a própria figura de quem aceitou o pedido de impedimento, o presidente da Câmara dos Deputados.

“O personagem Eduardo Cunha passou a ser visto como uma figura política contraditória nas redes”, diz Malini. O fato de Cunha estar envolvido em uma série de escândalos, com seu papel político questionado por colegas, imprensa e sociedade (o Datafolha mostrou recentemente que 81% dos brasileiros são favoráveis ao seu afastamento), fez com que a rede se fragmentasse. Não à toa, até às 13 horas de ontem, a hashtag #foracunha apareceu 6.961 vezes no Twitter, contra 2.959 vezes do #foradilma.

O MBL, por exemplo, comemorou o impeachment, mas isso pegou mal, porque fica parecendo que eles estão comemorando uma coisa do Cunha”, comenta Pedro Guadalupe, especialista em marketing político digital que já trabalhou para campanhas do PSDB. A polarização entre Cunha e Dilma, avalia, é interessante para o PT. “Essa polarização não pegou ainda, mas é uma estratégia boa para eles, porque se compararmos um com o outro, a Dilma ganha”, completa. A presidenta e seu Governo, com baixíssima aprovação, já deram todos os sinais de que investirão na estratégia de comparar biografias. Em todos os pronunciamentos desde que Cunha deflagrou o impeachment, Dilma tem atacado o presidente da Câmara. Neste sábado, voltou a fazê-lo durante viagem a Recife.

Para o sociólogo Sérgio Amadeu, próximo do PT, era natural que a rede reagisse de um lado mais fragmentada e, de outro, contra Cunha. “Em março, com as mobilizações de rua, existiu um momento de calor muito intenso na discussão, em que as pessoas não paravam para refletir. Mas agora, por exemplo, elas veem o Delcídio do Amaral sendo preso e se perguntam o que o Eduardo Cunha ainda está fazendo como Presidente da Câmara”.

Todos concordam que ainda é cedo para fazer avaliações definitivas. O papel das redes daqui para frente ainda é pouco claro, mas as primeiras reações no Twitter já dão um indício de que se Cunha pensou que conseguiria sair do foco das acusações que colocaram seu nome no Conselho de Ética da Câmara, se enganou. O engajamento em torno do impeachment nas redes, no entanto, não é uma variável menor e parte da oposição conta com a mobilização virtual e real para forçar a balança da destituição no Congresso.

Top 10 mais influentes na rede

Perfis

Influência

@dilmabr 2479

@lucianagenro 2172

@iahgos 1939

@pecesiqueira 1095

@girlaws 889

@gduvivier 779

@felipeneto 772

@uitraviolarry 632

@tumaoficial 524

@bchartsbr 481

* O cálculo é feito a partir da equação: número de retweets/replies recebidos pelos perfis, divido pelo numero de tweets criados por cada um deles* Os cálculos foram feitos entre 1 e 3 de dezembro (até 13h).

Para Malini, além do impeachment, outros assuntos têm despertado mais atenção das redes. “Pela primeira vez, além do confronto entre militância governista e oposicionista, ambos usando robôs, emergem comunidades em torno de perfis que satirizam o acontecimento”, avalia Malini. “É um modo de ler o processo como um teatro sem grandes novidades, enquanto a vida ordinária do brasileiro fica à deriva de acontecimentos concretos, como crise economia, tragédia ambiental no Rio Doce e violação de direitos sociais na questão da reorganização das escolas em São Paulo”.

Outra curiosidade apontada por Malini é que os perfis ligados aos protestos do início de 2015, como VemPraRuaBR e RevoltadosOnline, não aparecem na lista dos mais influentes quando o assunto é impeachment. Para Amadeu, esses grupos não terão a mesma facilidade de mobilizar pessoas para rua —eles convocam nova manifestação para o domingo 13. “Hoje, São Paulo, que foi o centro das mobilizações pró-impeachment, vive um período de instabilidade com a questão das escolas, acho difícil que eles consigam organizar um discurso nas redes nesse momento”, comenta, fazendo a ressalva de que qualquer prognóstico é muito imprevisível, ainda mais porque a leitura de dados feita pelo Labic trata, por enquanto, apenas do Twitter.

“Recentemente o Facebook mudou sua API e ficou muito difícil para avaliar o que é publicado na rede social”, diz Amadeu. E no Facebook, rede usada por 60% dos brasileiros com acesso a internet, a palavra impeachment, organizadora das manifestações do começo do ano, pode estar tendo outro tipo de adesão. “Na campanha de 2014, por exemplo, os militantes do PT eram mais fortes no Twitter e perdiam no Facebook”, comenta o sociólogo. A única certeza é que o presidente da Câmara aceitou o pedido de impeachment em seu pior momento nas redes sociais. O #foracunha já tinha sido viralizado pelos movimentos feministas e agora pode crescer ainda mais: com ou sem o apoio ao impeachment da presidenta.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/04/política/1449248594_307424.html