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Em turnê com Gil, Caetano Veloso apresenta DVD e fala sobre amizade e política

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O encontro entre dois amigos de longa data tem pouca conversa no palco, mas muitos olhares de cumplicidade que traduzem, de um lado, o leonino Caetano Veloso e, do outro o canceriano Gilberto Gil. Um “ocidentalista teimoso”, o outro “apaixonado por culturas orientais”. Um despreocupado com a passagem de som, o outro viciado no rito. “Yin e Yang”, define Caetano.

Ambos com 73 anos, 50 dedicados à música, os cantores baianos celebram a trajetória com a turnê Dois Amigos, Um Século de Música, que ganha registro em CD e DVD homônimo, gravado em São Paulo. Lançado pela Sony, o álbum eterniza o show que já passou por dez cidades do Brasil, dez países e um principado da Europa, além de quatro cidades da Argentina e Uruguai.

Salvador é a próxima cidade a receber os ícones da música popular brasileira – mais ainda sem data e local definidos. Enquanto o encontro ao vivo não chega, o CORREIO conversou com Caetano sobre o show, sobre momentos marcantes como os ensaios com Gil no  Teatro Vila Velha, sobre a realidade política do Brasil – “difícil, em que tudo parece inviável”-, sobre problemas de Israel e outros temas. Confira.

Um século de música passeia por importantes fatos históricos do Brasil e seus versos sempre serviram de “grito” para a transformação sociocultural do país. Você encara a música como “arma” contra os problemas sociais e políticos?

Nunca pensei a música como arma de transformação direta da realidade social e política. Uma canção pode fazer muito mais ou muito menos do que aquilo que sua letra diz. Nossas canções podem fazem pensar em situações sociais passadas ou sugerir situações futuras, mas isso está totalmente fora da intenção deliberada dos autores. O Brasil vai se mexendo, errando, buscando se encontrar. A música popular tem papel importante nisso. Sempre teve. Mas nem sempre isso é como parece na superfície. A vinda da música do Oeste para o litoral, a invenção do funk carioca, o crescimento espetacular da axé music por tantas décadas, são fatos de grande importância. A consciência do rap paulistano e do manguebeat pernambucano também. Alguma coisa nova pode estar sendo gestada agora mesmo e nós não sabemos.

A amizade de décadas entre você e Gil nasceu no início dos anos 60, na Rua Chile em Salvador. Certo? Qual história curiosa você destaca dessa época?
Gil ia ensaiar conosco no Vila Velha, fazia a direção musical, os arranjos, ia conversar conosco na Biklour, depois dava plantão na Alfândega. De manhã ia para a faculdade de administração, onde era aluno exemplar e foi o orador da turma. A imagem do baiano preguiçoso era desmentida eloquentemente pela vida dele. E isso se reafirmou na saga da axé music. Conversávamos com João Augusto Azevedo e Echio Reis, do Teatro dos Novos, que nos apresentaram Lorca, Billie Holiday, Chet Baker, Ray Charles, Carson McCullers… Um diálogo interessante com artistas e poetas fortes marcou o tropicalismo, anos depois – e é ainda característica de nossa atividade criadora. Qualquer história ou crônica dessa época prenuncia o que veio a contecer depois.

Vocês saíram da Bahia e ganharam o mundo com letras que cantam nossa cultura com amor e crítica. Agora, após 50 anos de carreira, como avalia a realidade sociocultural e política da terra natal, onde tudo começou?

Temos que lutar pela Segunda Abolição, na expressão querida de Jorge Mautner.

No DVD Dois Amigos, Um Século de Música você comenta que o repertório vai da música mais antiga, De Manhã (1963) até a recente As Camélias do Quilombo do Leblon, feita para o show após a turnê internacional. O que o inspirou?

Fazia já um bom tempo, eu tinha lido um artigo de Eduardo Silva sobre o Quilombo do Leblon e suas camélias, que se tornaram o símbolo do movimento abolicionista. Antes de ir para a Europa, li A História da Princesa Isabel, de Regina Echeverria e Brasil, Uma Biografia, de Lilia Schwarcz e Heloísa Starling, livros onde há referência a esse quilombo. De volta da Europa, me veio à cabeça, enquanto tomava banho em minha casa de Salvador, fazer uma canção sobre o tema. A sonoridade percussiva das palavras “as camélias do quilombo do Leblon” me sugeriram a frase melódica, a primeira parte. Esbocei uma segunda parte parecida com No Tabuleiro da Baiana, de Ary Barroso (1903-1964). Fui à casa de Gil e mostrei o que tinha feito, pedindo que ele refizesse a segunda parte sem abandonar de todo a parecença com a música de Ary. Ele fez isso e ainda arrematou com a frase final. Nós adoramos essa música. Ela fala desse episódio bonito de nossa história (que não nos ensinam nas escolas!), comenta os caminhos do samba, encontra sentido na rima de Leblon com Ebron, ao comentar a passagem pela Cisjordânia, e conclama o ouvinte à realização da Segunda Abolição.

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O que norteou a escolha do repertório do show?

Mal tivemos tempo de pensar. Fizemos o roteiro em pouco tempo. Tivemos pouquíssimos ensaios. Acho que o que entendemos e sentimos sobre o trabalho que vimos fazendo há tantos anos nos levou a criar um roteiro quase não-pensado que, uma vez mostrado ao público, se mostrou forte, tanto para brasileiros quanto para estrangeiros.

O que vocês, que lideraram o movimento tropicalista na década de 1960 e passaram pelo  exílio têm a dizer sobre o atual momento político do Brasil?
É um momento difícil, em que tudo parece inviável. Tomara que sejam dores do crescimento. Só me lembro das palavras de Agostinho da Silva: “O futuro do Brasil é tão grandioso que não há abismo que o caba” (parece que ele o disse assim, com o verbo caber como objetivo direto).

Durante a turnê, vocês enfrentaram uma tentativa de boicote, em Tel Aviv. Essa experiência fez vocês reavaliarem a atitude diante do Oriente Médio? O que vocês, que fazem parte da cultura ocidental, puderam absorver dessa experiência em Tel Aviv, de ter visitado os campos e ter visto as vítimas da violência e da discriminação religiosa?
A complexidade dos problemas de Israel na Palestina é nossa velha conhecida. Tentativas de fazer Gil desmarcar shows lá já tinham sido feitas antes. Eu é que havia bem uns 20 anos que não ia a Israel. Amei Tel-Aviv e aquela gente, como das outras vezes. Mas ouvi os membros do Breaking the Silence, movimento de revolta de ex-soldados do exército israelense, e decidi contar publicamente por onde andaram minha cabeça e meu coração nessa viagem. A Conib me chamou de antissemita, mas muitos judeus brasileiros e não brasileiros (inclusive israelenses) fizeram questão de me dizer que gostaram do que escrevi.

Você e Gil não faziam turnê juntos desde Tropicália 2. Após tanto tempo, agora em turnê mais abrangente,  estão refazendo a história de amizade. Como é a convivência hoje? Como é o fato de dois músicos de 70 anos estarem pegando a estrada novamente?
Nessa idade, viajar é mais pesado. A gente não sai tanto de dia para passear e ver as coisas. Fica quase restrito ao show. Mesmo assim, fomos à Cisjordânia. E jantamos do Beaubourg em Paris. E conversamos muito em palcos e aeroportos. De minha parte, há décadas que não fazia passagem de som. Gil é viciado em passagem de som e, por causa dele, eu tenho ido a esse rito em todas as cidades. Ele está certo. O artista tem de passar o som em cada casa diferente. Eu sou mais relaxado com esses acertos técnicos. Mas também ele fazia passagens mais longas do que o próprio show. Diante de minha parcimônia (e economia vocal), ele passou a fazer uma passagem de som mais funcional, de poucas canções, apenas até o técnico Vavá dizer: tá OK!

Ao longo de 50 anos de carreira, vocês trilharam caminhos diferentes e por vezes opostos, tanto musicalmente, quanto politicamente. Como avalia suas trajetórias nesse período?
Gil e eu sempre fomos diferentes e mesmo opostos. Mas isso só reforça nossa sensação de complementaridade. Yin e Yang, canceriano e leonino, até preto e branco já nos sentimos. Eu o chamo, há anos (e até num título de canção sobre versos do poeta Sousândrade) “Gilberto Mosterioso”. Ouvindo isso no palco de nossas apresentações europeias, Gil começou a completar me chamando “Caetano das Luzes”. É que, dos dois, eu sou o iluminista oficial. Gil se apaixonou por culturas e religiões orientais; eu sempre me mantive ocidentalista teimoso. Hoje que relativizo esses valores, ele, simetricamente, relativiza os correspondentes no mundo dele. Quando ele era ministro e mostrava simpatia pelas mudanças advindas da internet, eu defendia a ideia tradicional de direitos autorais. Quando ele defendia o controle das biografias pelos biografados, eu dizia que não ia querer que todos os livros biográficos fossem chapa-branca. Quando eu o conheci, ele não tinha nem mesmo um remoto traço de consciência da questão racial, o que me intrigava e quase me agastava. Quando saiu um livro que problematizava a racialização do pensamento politico brasileiro (Não Somos Racistas) e eu demonstrei interesse e simpatia pelo livro, ele me disse: “é ideológico”. Quando ele se apaixonou pela música de Milton Nascimento, eu não via ainda o gênio musical do mineiro (embora visse sua fascinante figura e personalidade). Nós sabemos que somos diferentes e que muito frequentemente ficamos em lados opostos, mas sabemos mais do que isso: que somos como os gêmeos míticos.

Fonte: Laura Fernandes