Rondônia - 29 de junho de 2017
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Governo de Rondônia e Consulado da Itália se unem para realizar sonho de idoso italiano de voltar à terra natal

A visita do cônsul italiano Michele Pala a Rondônia mobilizou a equipe da Secretaria de Estado da Assistência e do Desenvolvimento Social (Seas) e da Casa do Ancião São Vicente de Paulo, em Porto Velho, a promover encontro com o italiano Valentino Vitali, 70 anos, que está na instituição de longa permanência mantida pelo governo de Rondônia há mais de dois anos. Há 30 anos ele está longe de sua terra natal e sonha em voltar à Itália.

Agora com esse encontro, as esperanças se renovam, e Valentino aguarda o retorno a sua cultura e aos seus costumes, mas afirma que todas as experiências vividas em Rondônia serão eternizadas em um livro.

‘‘Quero voltar para minha terra. A minha família lá parece que não está mais interessada em mim, e eu não tenho condição financeira de fazer isso, então pedi ao consulado para me repatriar com a ajuda do governo. Ele ficou de arranjar um lugar para mim na Itália, na minha região [Lombardia] para que meus familiares possam ir me visitar’’, afirmou Valentino.

Questionado sobre o que fará ao voltar à Itália, Valentino revela que se preocupará primeiro em garantir as boas condições de saúde. ‘‘Eu faço hemodiálise três vezes na semana’’, explicou.

Mas o grande sonho dele é escrever um livro no qual contará todas as experiências vividas nas últimas décadas fora da Itália. ‘‘Quando voltar colocarei tudo o que vivi aqui em um livro. Eu até já tinha começado a escrever, mas parei’’, revelou.

O sonho de Valentino se aproxima agora que conta com o apoio do consulado italiano. ‘‘Entre as tarefas do consulado está justamente essa de apoiar e dar assistência a cidadãos que tenham alguma necessidade, como é o caso do seu Valentino. Quero agradecer ao governo do Estado de Rondônia que o tem acolhido, agradecer também a toda a equipe da Casa, que está cuidando dele já faz tempo. É muito admirável que exista essa estrutura que possa cuidar dos idosos e que entre eles esteja um cidadão italiano’’, considera o cônsul italiano Michele Pala.

O cônsul se sensibilizou com o desejo de Valentino em voltar à Itália. ‘‘Ele tem desejo de voltar para a Itália. Faz 30 anos que ele já está longe de lá. Então tirando ele daqui, a nossa preocupação é ter certeza que vai encontrar uma acolhida na própria família ou em outra estrutura, porque não tem sentido fazer uma operação dessas sem ter esta certeza. Vamos começar a trabalhar nisso para achar uma situação adequada para ele ficar lá’’, disse.

Mas além da acolhida, outra preocupação é com a viagem. ‘‘Temos que ter certeza que ele pode fazer a viagem, porque é muito longa, e sabemos que tem alguns problemas de saúde. Precisamos saber se ele poderá fazer esta viagem do ponto de vista médico. Vamos trabalhar isso com a equipe da Casa juntamente com o nosso correspondente consular. Não será uma solução para amanhã, mas vamos procurar solucionar’’, garantiu o cônsul.

UM ITALIANO EM TERRAS RONDONIENSES

Valentino é da região de Lombardia, no Norte da Itália, fronteira com a Suíça. ‘‘Onde eu morava com minha família é área de montanha, chamada de pré-alpes, antes dos alpes, então lá tem neve, frutas como uva, maçã, pera, ameixa. Lá é tudo verde também, mas diferente daqui. Éramos uma família muito unida, tipicamente italiana, agricultores, nossa propriedade batia na fronteira com a Suíça. Lá estão meus costumes, minhas comidas. Vocês só conhecem macarrão e pizza, mas temos bastante coisa. Aqui vocês comem muita farinha, eu não consigo comer’’, observou, revelando que teve dificuldade de se adaptar à culinária amazônica, mas nos momentos difíceis já chegou a comer farinha com café ou farinha com água.

‘‘Eu gosto do nosso peixe, os peixes do mar, principalmente o salmão. Não sou um grande fã de peixe de água doce’’, disse, explicando a maneira diferente de pensar a culinária dos países. ‘‘Vocês brasileiros comem para viver e nós italianos vivemos para comer. Os costumes de cada um são diferentes, não podemos ficar questionando’’, avalia.

Valentino não veio direto da Itália para o Brasil. Antes viveu oito anos em Luxemburgo. A partida para o Brasil, segundo ele, foi incentivada pelo fato de ter um irmão que fazia trabalho missionário no Estado do Ceará. ‘‘Eu tinha vindo para visitá-lo, passou um mês e eu queria voltar para casa, mas não consegui passar na fronteira para a Venezuela porque não tinha conseguido o carimbo para o passaporte. Aí decidi não voltar mais. Era época de garimpo, o pessoal dizia que tinha muito ouro, e eu com a cabeça de aventureiro decidi ficar aqui”, contou.

De uma sociedade com um dono de draga sucateada, ele com sua experiência em negócios começou a ganhar um bom dinheiro. Valentino é formado em engenharia mecânica e chegou a estudar engenharia elétrica, mas não concluiu. Já havia trabalhado na administração de empresas. ‘‘De 1986 e 1990 foi o auge, tinha tanta draga no rio que não dava para contar’’, recorda.

O enriquecimento rápido atraía gente de vários cantos do País e do mundo, aventureiros que tiveram que enfrentar os intempéries amazônicos como a malária. ‘‘Sabe quantas malárias eu tive? Tenho 126 comprovadas, mas como estava acima do peso na época, mais de 100 quilos, eu acabei gostando de pegar malária porque perdia um quilo e meio por dia’’, confidenciou.

Mas conta que a malária interrompeu a vida de uma namorada que morava no município de Nova Mamoré. ‘‘Eu fui para a cidade na sexta-feira à noite comprar coisas para ela e para mim, voltei na segunda-feira de manhã e já tinham sepultado ela’’, lamentou.

Antes de vir para o Brasil, Valentino foi casado com uma sueca, e teve um filho com uma italiana. ‘‘A última vez que o vi tinha cinco anos. Na época que a mãe dele me contou que estava grávida eu disse que não tinha estrutura para assumir aquele compromisso. Disse que iria ajudá-la, mas não tinha cabeça para casamento. Enquanto vivia lá, eu a ajudava, ia visitá-los todo mês, levava presentes. Éramos amigos, só que aí ela casou com o filho do prefeito da cidade’’, lembra.

‘‘Meu filho deve ter uns 36 anos. Deixei um menino e encontraria um homem, acho que o conheceria porque ele era muito parecido comigo. A mãe dele deve ter 62 anos’’, acredita.

Quando Valentino saiu da Itália seus pais já haviam falecido. Eles são em 10 irmãos, sendo nove homens e uma mulher. Dois deles o encontraram quando ele já estava há nove anos no Brasil. ‘‘Passaram alguns jornalistas italianos por lá na draga onde eu trabalhava e fizeram uma reportagem que foi exibida na Itália, e meu irmão dois anos mais novo que eu, advogado, foi à TV saber como me localizar, e junto com meu outro irmão, que era missionário (já falecido), me encontraram. Quando eles chegaram lá, quase tive um infarto’’, disse, revelando que esse foi o último contato que teve com seus familiares.

Quando os rios já não produziam tanto ouro como antes, Valentino passou a ensinar a língua da pátria, e era como professor de italiano que sobrevivia. Ele orgulha-se de falar que ensinou a muitos magistrados e doutores. Mas a diabetes levou à amputação de um dedo e de parte de uma das pernas, e foi aí que ele passou a ser amparado e receber toda a assistência do governo na Casa do Ancião São Vicente de Paulo, uma instituição de longa permanência, localizada no centro de Porto Velho, vinculada à Secretaria de Estado da Assistência e do Desenvolvimento Social (Seas) para abrigar os idosos a partir dos 60 anos, que passam por abandono ou maus-tratos.

Suas raízes e costumes estão muitos vivos em sua essência e Valentino não nega que gosta muito de compartilhar o conhecimento da língua e gastronomia italianas. O dia em que voltará para a Itália, ainda é incerto, mas o sonho fica mais próximo com o esforço do consulado e do governo estadual, que trabalha para dar agilidade à missão de repatriá-lo. Certamente Valentino levará na bagagem muito mais que roupas e sapatos, mas lembranças de uma Rondônia cheia de aventuras e aprendizados.
Fonte:SECOM

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