Rondônia - 23 de julho de 2018
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Recuperando-se no Vasco após cirurgia, lutadora de MMA Priscila Pedrita exalta seu clube de coração

No cenário nacional é conhecida como Pedrita. Ao redor do mundo, atende pelo nome de ‘Zombie Girl’. Porém, por trás das tatuagens e do moicano, a carioca Priscila Cachoeira carrega uma história gigante de superação, gratidão à mãe, e memórias negativas – mas que jamais serão esquecidas. Ao LANCE!, a lutadora abriu o coração sobre o início de tudo, quando foi dispensada pelo Fluminense na adolescência até chegar ao UFC, passando por anos na cracolândia desiludida e desnorteada. Hoje, lesionada, recebeu convite do Vasco, clube de coração, para recuperar-se no Caprres e dar mais uma volta por cima na vida. Confira a entrevista emocionante no vídeo abaixo:

Decepção na adolescência

– Sempre gostei muito de esporte, desde a minha infancia. Joguei vôlei pelo Fluminense, fui federada, mas sofri uma decepção muito grande no clube, onde me dediquei dos meus 10 aos 15 anos. Foram cinco anos. Saía de Bangu, sozinha, andando pela Central do Brasil, porque minha mãe não tinha condições de me levar todos os dias ao clube, trabalhava para sustentar eu e meus irmãos. Fui dispensada antes de um jogo importante, e aquela decepção acabou comigo.

Mundo das drogas

– Abri mão do esporte, me desiludi. Passei a fazer escolhas erradas. Comecei a frequentar baile funk e aos poucos a entrei nos mundos das drogas. De início, drogas mais leves. Usei maconha, depois fui para o loló, e quando fui ver estava na cocaína. O usuário sempre pensa assim “eu tenho controle, saio quando eu quero”. E foi nessa que me afundei. Cheguei a usar o crack, fiquei 4 anos usando o crack, eu era cracuda mesmo, de frequentar a cracolândia. Quando eu me vi, estava em decadência entregue no mundo das drogas. Entrei com 16 anos e comecei a usar crack com 19 anos. Fiquei até os 23 anos nessa vida.

Resgate da mãe

– Eu já queria largar as drogas, mas não conseguia. Queria porque eu sabia que estava morrendo, eu sentia que estava morrendo. Estava muito magra e pedia a Deus “me ajuda, me tira disso” porque eu não conseguia largar as drogas, não conseguia. A minha mãe tentou me internar, tentou ver clinica de reabilitação, tentou diversas formas mas o corpo já estava dominado meu corpo já estava muito dependente das drogas. Até que um dia eu estava dentro da cracolândia e não consegui voltar para casa. Minha mãe achou estranho, porque eu sempre ia na cracolandia, mas voltava para casa. No terceiro dia seguido sumida, minha mãe começou a se movimentar para ir atrás de mim. Eu estava dentro da cracolandia, queria ir embora, mas não consegui, como se estivesse acorrentada lá dentro, três dias me drogando direto. Achei que fosse morrer naquele dia.

– Naquela cracolandia, toda quarta-feira um pastor ia fazer um sopão. Minha mãe conseguiu localizar esse pastor e foram até mim. Eu estava sentada num galão de tinta me drogando por três dias, sem conseguir me mover. Até que vi um clarão de luz entrando na mata que a gente ficava. Essa luz veio se aproximando mas eu não conseguia ver a fisionomia. Quando veio chegando perto, vi a cor do vestido, reconheci e gritei ‘esse vestido é minha mãe!’. Quando gritei, os outros usuários de drogas saíram correndo, mas eu não tinha força pra correr, eu estava ali muito debilitada. Fiquei sentada e ela vindo em minha direção junto com o pastor. Eu só pensava: ‘nossa, mas eu vou apanhar muito’. E ela passava por de baixo das armadilhas que colocávamos para dificultar a chegada de policiais para chegar até a mim. Quando ela chegou perto, fui olhando pra cima cheio de medo achando que ia apanhar muito, mas ela só estandeu a mão pra mim e falou: ‘vamos embora, vamos pra casa’ e me deu um sorriso tão lindo. Eu peguei na mão dela, ela me ergueu, me abraçou e começamos a chorar. Fomos caminhando até nossa casa, os outro usuários que haviam corrido voltaram aplaudindo ela e gritavam: ‘como eu queria ter uma mãe igual a sua, não volta aqui nunca mais, esse lugar não é pra você’. E ali foi o início do meu resgate.

Recomeço no esporte

– Já tinha 25 anos, estava procurando um rumo na vida. Lembro quando estava sentada no portão da minha casa pedindo a Deus uma solução para sair das drogas de vez, porque sempre que batia a abstinência eu voltava. E nesse dia estava acontecendo uma festa do lado da minha casa em comemoração a abertura de um polo de luta, que iria ensinar a lutar de graça. No meio dessa festa, passou uma amiga minha na rua e falou ‘por que não vai fazer luta com a gente? É de graça, vamos lá!’. Aceitei qualquer coisa para fugir da droga, era mais um refúgio que uma vontade de lutar. Mas foi ali onde tudo começou.

– Quando cheguei lá naquele polo, já me colocaram um capacete, uma caneleira e uma luva de boxe pra lutar com um menina enorme sem saber nem socar. E naquele momento, com aquela pressão, parece que todos os meus fantasmas foram liberados. Eu fui para cima da menina com tudo, igual um helicóptero, e ela recuou, pediu arrego, e quando acabou o mestre olhou pra mim e falou: ‘você vai ser minha mais nova lutadora’. E eu aceitei, naquele momento eu comecei a encontrar aquela Priscila que ficou lá no Fluminense decepcionada. Porque quando eu jogava vôlei, escutava: “Priscila! Priscila!”. Gostava de ouvir a torcida motivada. E naquela roda de luta quando começou o sparring o povo ficava gritando ‘Vai Pri, vai Pri!’. Pensei que estava me encontrando de novo. Toda aquela mágoa voltou agora como motivação.

Primeiros passos no MMA

– Com apenas 19 dias de treino apareceu uma luta de muay thai na Team Nogueira, na Freguesia, e meu mestre disse pra eu ir, Mas eu nem sabia lutar, estava começando. Ele me motivou e eu topei. Lá, minha luta foi com uma menina que parecia uma rã, com dez lutas, dez vitórias e cinco por nocaute. Pensei: “meu Deus, e agora?!”, mas quando fechou a jaula eu fui pra cima dela e só sabia dar jab, direto e chute, mas consegui ganhar a menina. Dali, comecei a ver que tinha um futuro.

– Minha mãe? Foi em todas as minhas lutas. Inclusive na minha estreia no MMA profissional (primeira luta na PRVT). Eu achei que fosse perder, peguei uma adversária muito forte, campeã de boxe no Rio de Janeiro. Quando começou a luta eu apanhei muito e não conseguia achar a menina e logo veio na minha cabeça desistir. Quando pensei nisso, eu olhei pro lado minha mãe em baixo do octagon, falando “não desiste, filha”. Quando eu vi ela daquele jeito eu não desisti, consegui soltar um direto que a adversária abriu o olho, sentiu o golpe, e pensei ‘agora ela me respeitou’. Consegui virar a luta e ganhei.

Família PRVT

– Paraná Vale Tudo, foi onde tudo começou. Não tenho só um mestre, tenho um pai aqui. Quando comecei a querer entrar no mundo do UFC, fui buscar uma equipe que pudesse ter esse suporte do MMA para mim. Porque minha primeira equipe era só Muay Thai e só um estilo de luta não iria dar a base pra chegar no UFC. Foi tudo muito bem conversado e aceito. Fui convidada para fazer um teste na PRVT, que é uma equipe que já tem um preparo e já tem um suporte, tendo já uma lutadora no UFC, chamada Jéssica Bate-Estaca, que considero uma irmã, foi uma das principais pessoas que me ajudaram a chegar no UFC. O meu teste inclusive foi com ela… tomei cada soco que não sabia de onde vinha. Quando acabou o sparring o Mestre Juliard Parana falou para mim: ‘você chega lá’. Foi o início do crescimento para o profissional

Inicio UFC:

– Eu tinha feito uma aposta com meu irmão que em 3 anos iria entrar para o UFC, e nem tinha ido para o PRVT ainda. Ele achou maluquice. Conheci a PRVT e ali comecei a galgar o rumo ao meu sonho, e em um ano e meio eu entrei para o UFC, foi metade da aposta. PRVT é uma família, temos a PRVT Girls, que hoje é o maior e melhor time feminino do mundo. A estrutura foi crescendo e hoje temos mais de 15 meninas já despontando a entrada no UFC. Estou agoniada, porque estou em tratamento no Vasco e não posso ficar perto delas. Mas vou voltar mais forte. Eu não posso desistir, porque eu sei tudo que me trouxe até aqui. Tem pessoas que dependem de mim e pessoas que se espelham em mim, não posso desistir.

Recuperação na Colina

– O Vasco da Gama me deu esse suporte incrível para minha recuperação no joelho, me abrindo a porta do CAPRRES, me dando todo o apoio com profissionais, locomoção, alimentação e o carinho que me tratam. Fora que eu sou Vascão de coração e ser acolhida pelo meu time não tem preço. Estava em casa desesperada, lesionada, pensando que ia surtar. Vinha de uma rotina de quatro, cinco treinos por semana e do nada veio essa lesão na minha derrota na estreia do UFC.

– Deus é incrivel, eu tinha frustração com o Fluminense. Eu tinha mágoa e tristeza, por conta de um clube. E quando eu fui para uma entrevista em São Paulo eu recebi o convite da Sonia Andrade (Vice-presidente do Vasco). Quando eu contei minha história ela se encantou e perguntou se eu já tinha um fisioterapeuta. Falou: ‘Vem comigo que o Vasco vai te ajudar’. Ela me abraçou de verdade, o clube me abraçou de verdade e foi assim que começou minha ligação com o vasco.

Já imaginou a torcida do Vasco gritando seu nome, em São Januário?

– Eu acho que infarto se ouvir a torcida cantar meu nome, vou ficar muito feliz. Vou fazer o que eu puder pra exaltar essa torcida maravilhosa que é minha torcida do Vasco. Estamos em negociação com um patrocínio para me tornar uma atleta do Vasco. Em São Januário, já me sinto em casa. Essa molecada mais nova vem comigo, fica sempre me dando apoio, querendo tirar foto, saber quando vou lutar de novo, querendo saber quando vai acabar a fisioterapia e os pais vem junto. Levar esse amor para eles não tem preço que pague, ver a felicidade deles com um simples gesto e amor não tem preço, eles sentem uma força em mim. O Vasco é uma segunda casa pra mim, estou quase trazendo uma cama e dormindo aqui mesmo (risos)

Como foi essa lesão? Apanhou muito da Shevchenko, fenômeno do UFC?

– Na verdade eu já estava lesionada antes da luta, só que eu não sabia. Faltando 2 semanas para minha luta eu lesionei o joelho no treino mas não sabia a gravidade pois não fui fazer os exames, porque só pensava na luta e queria muito lutar. Então eu só poupei o joelho achando que ia ficar boa.

Guerreiro de verdade não escolhe combate, e quando eu aceitei a luta, ninguém queria lutar com ela. Só que não contava com essa lesão, eu poderia perder essa luta, mas seria uma guerra seu eu estivesse 100%. Tudo que aconteceu na luta foi exatamente o que eu treinei, então quando eu lesionei 2 semanas antes eu não sabia a gravidade e fui mesmo assim. Só que logo no início, aos 30 segundos, eu dou um passo pra trás e meu joelho estoura, ligamento, menisco. Eu não tinha o que fazer, se fosse qualquer atleta ali eu apanharia da mesma forma porque não tinha o que fazer, só consegui me defender e aguentar até o meu limite. Tomei mais de 200 socos e não fui nocauteada, mesmo com o joelho ruim. Vamos pela lógica, imagina se estou 100%? Não conseguia fazer meus movmentos completos por conta do meu joelho. Mário (Yamasaki, árbitro) não parou a luta antes porque ele dizia: ‘Pedrita, se você não se movimentar eu vou interromper a luta’. Eu dava um jeito de mostrar pra ele que eu estava vivendo o combate, os socos dela não estavam me deixando tonta a ponto de me nocautear. Até o final do ano eu quero voltar 100% pro palco do UFC. Vou fazer mais umas duas lutas e ainda vou pedir revanche, pode ter certeza disso.

Você ganhou o prêmio de melhor luta do ano. Como foi isso?

– Na minha sétima luta do MMA, enfrentei a Marta Gladiadora. Para mim, aquela luta foi até mais dolorida que contra a Shevchenko. Estava 100%, ela me deu um soco no segundo round que quebrou o pau do nariz e a maçã do meu rosto. Desesperei, se eu não nocauteasse ela logo, não ia enxergar. Enquanto eu batia nela, parecia que ela tinha uma escama de jacaré, ela não sentia. Que luta foi aquela. Tanto que foi dado como a melhor luta do ano de 2017. No final do segundo round, os árbitros interromperam a luta para a assistência médica ir para as duas, nenhuma queria parar. Sai vitoriosa por decisão dos juízes.

Até o chefe máximo do UFC, Danna White, já te parabenizou. Como foi?

– O que o Danna White fez por mim, serei eternamente grata. Minha mãe sempre acompanhou todas as minhas lutas e quando eu aceitei lutar o UFC Belém, não tinha condições de levá-la. Ele me fez uma surpresa e a pedido do Danna minha mãe foi pra Belém. Eles pagaram tudo pra minha mãe e no dia da minha luta, no hotel com todos os lutadores, quando abri o elevador, minha mãe estava lá. O Danna White que proporcionou e logo ao fim da minha luta ele mandou dizer para mim que era uma honra me ter no UFC. Me deu todo o suporte da cirurgia e falou que assim que estiver de volta era pra avisar a ele que ele vai marcar minha estreia de verdade. Toda a conversa foi pelo google tradutor (risos).

Depois de passar por tanta coisa na vida… Qual é o próximo sonho de Pedrita?

– Tenho um sonho de salvar vidas e inspirar vidas. Só existe uma forma de salvar o mundo e ela se resume em uma palavra e se chama ‘amor’. Com amor, você transforma tudo que há de ruim. E foi o amor da minha mãe e o amor de Deus que salvaram a minha vida porque se não fosse o amor que eles têm por mim, eu não poderia estar aqui mandando essa mensagem. Então não percam as suas esperanças pela recuperação das drogas, dêem amor a seus amigos e parentes que necessitam de ajuda, porque só assim eu consegui sair do mundo das drogas e dar a volta por cima.

Fonte: Lance