Rondônia - 22 de setembro de 2018
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Núcleo ‘secreto’ do Corinthians atua até contra depressão e suicídio nas categorias de base

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Regiane, Dominique e Rebeca comandam o NESP nas categorias de base do Corinthians

Regiane, Dominique e Rebeca comandam o NESP nas categorias de base do Corinthians

Foto: Lucas Faraldo / Meu Timão

Salários astronômicos, fama, viagens e, talvez acima de tudo, trabalhar fazendo aquilo que gosta: jogar bola. Tornar-se atleta de alto rendimento de futebol costuma ser associado aos óbvios benefícios da profissão. O que muita gente não sabe é o longo e árduo caminho pelo qual boa parte dos boleiros teve de passar quando ainda eram adolescentes e até crianças.

Distância da família e isolamento em alojamentos; indisposição e falta de tempo para frequentar escola, estudar e tirar boas notas; cobranças oriundas das mais distintas esferas da sociedade; dores, lesões e cirurgias num corpo ainda em formação; e maturidade (ou não) para lidar com as prováveis decepções da incerta carreira de jogador de futebol.

Específicos de jovens que são preparados desde cedo para se tornarem atletas de alto rendimento, esses são alguns dos gatilhos de transtornos que já frequentemente atingem pré-adolescentes e adolescentes, tais como depressão e ansiedade – causas comuns em casos de suicídio, que é atualmente assunto de debates graças à campanha Setembro Amarelo.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio acomete mais de 800 mil pessoas por ano no mundo, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

E é visando, em casos mais extremos, ajudar no combate à depressão, à ansiedade e ao suicídio nas categorias de base do Corinthians que três mulheres pouquíssimo conhecidas pela Fiel (até agora) atuam em sinergia numa sala no Parque São Jorge há cerca de um ano. A história do trabalho delas você conhece abaixo, contada pelo Meu Timão.

NESP: o ‘núcleo secreto’ do Parque São Jorge

“A gente fica nos bastidores, a torcida não sabe. Ninguém fala nada, mas estamos aqui. Não fazemos questão de aparecer, mas ficamos contentes com as conquistas dos garotos do Corinthians como se fossem nossas.”

A fala acima foi pronunciada por Dominique Gonçalves, psicóloga do Corinthians e responsável por dar suporte às categorias de base do futebol de campo do clube. Ela trabalha em conjunto com a assistente social Regiane Ferreira e a orientadora educacional Rebeca Peridis. Juntas, as “meninas superpoderosas” do Parque São Jorge formam o Núcleo Educacional-Social-Psicológico, mais conhecido internamente pela sigla NESP e criado há pouco mais de um ano no departamento de formação de atletas do Timão.

A relação das três funcionárias do Corinthians com as categorias de base é muito próxima, seja pelo contato direto com os jogadores de dez a 20 anos de idade, geralmente feito nos horários das refeições dos atletas no clube, ou indireto por meio das comissões técnicas, quando os próprios treinadores dos garotos vão até elas relatar situações comportamentais atípicas. É atendida pelo NESP até mesmo a molecada que ainda não tem vínculo com o Timão e apenas passa pelo Parque São Jorge para períodos de avaliação.

“Nossa comunicação com os professores e técnicos é grande, acompanhando treinos, jogos. Mas sem esquecer esse lado externo do atleta, sem deixar de lado o que ele passa em casa, questões familiares, da escola, é um trabalho bem conjunto”, sintetizou Dominique.

“Por exemplo: na psicologia depressão é o F33, não é nem depressão. Preciso passar o significado disso para a comissão técnica, muitas vezes eles veem depressão como migué no treino. E é muito mais profundo. Bem mais”, acrescentou a psicóloga.

Dominique é a psicóloga por trás das categorias de base do Corinthians

Dominique é a psicóloga por trás das categorias de base do Corinthians

Lucas Faraldo / Meu Timão

Entre as funções mais importantes do Núcleo, está a conscientização dos jovens em diferentes áreas da sociedade. “O NESP vem do fim do ano passado, e a gente começou a fazer várias campanhas. Campanha contra desperdício de comida no alojamento, de disciplina dos meninos por lá, contra o assédio a mulheres, de alerta ao bullying, de bom comportamento no trânsito, dos efeitos do uso de álcool e drogas. E por aí vai”, listou Regiane. As temáticas (e abordagens) variam conforme a idade dos garotos.

“Às vezes falam que a gente problematiza demais, mas é importante se colocar sim no lado deles”, acrescentou Dominique.

A relação das três mulheres com a garotada vai até além do esperado. Houve situações envolvendo jovens que se mudaram do alojamento para seus próprios apartamentos, por exemplo, em que elas os ajudaram a lidar com o pagamento de boletos bancários e o controle do estoque de alimento em casa. São espécies de mães dos corinthianos.

“Aqui é um centro formador, esse é o rótulo dado pelo clube. E não à toa. A gente busca não só o rendimento como atleta mas também formar um caráter, um ser humano”, explicou Dominique Gonçalves.

Dramas da formação de um jogador de futebol

O trabalho de Dominique, Regiane e Rebeca “aperta” mesmo quando os jovens jogadores passam por problemas inerentes à condição de um atleta em formação. Na entrevista que concederam ao Meu Timão, as comandantes do NESP falaram sobre ao menos cinco dramas que atormentam com frequência os garotos do Corinthians no Parque São Jorge.

Alojamento

“Os meninos alojados estão longe da família e quando passam por dificuldade geralmente não sabem quem procurar, com quem conversar, como colocar aquilo para fora.” | Dominique Gonçalves

O alojamento é um espaço no Parque São Jorge destinado a acomodar jovens de 14 a 18 anos de idade que tiveram de sair de casa para se tornarem jogadores da base alvinegra. É uma residência para a garotada. Como em todo lar, há regras. E o NESP é quem está por trás da disciplina, com auxílio de quatro monitores que vigiam a garotada 24 horas por dia.

O afastamento da família, entre os alojados, é considerado o principal problema. O meia-atacante Pedrinho, hoje no elenco profissional, é um exemplo: por conta da distância entre São Paulo e Maceió, sua cidade natal, voltava para a casa dos pais pouquíssimas vezes por ano. Quanto mais afastados dos familiares, maior tem de ser o suporte do NESP aos garotos.

Há também questões ligadas à rebeldia. Um problema constante é o de atletas que não respeitam os horários de saída do alojamento e retorno – por regra, exceto na ida e vinda da escola, é necessária autorização dos pais para o atleta alojado deixar o Parque São Jorge.

“Há também aquele que não aceita ficar no alojamento. Você vê que era característica do menino, rebeldia. Com menos de 18 anos ele quer sair do alojamento, você sabe que ele vai quebrar a cara. Aí quando faz 18, volta para falar algo para a gente…”, contou Rebeca.

“O adolescente vai fazer coisa errada, vai te testar, procurar o limite. Isso é normal da adolescência. Precisamos estar atentos a isso”, completou Regiane.

Uma outra dificuldade pela qual os jovens passam identificada pela assistente social é justamente o processo de saída do alojamento ao completarem a maioridade. Apesar de não poderem mais seguir morando no clube, muitos não se sentem prontos para se mudar.

Estudos

“Todo mundo pensa que jogador se acha. Converse com eles sobre escola. É impressionante. Você vai ter outra visão.” | Rebeca Peridis

Também é missão do NESP orientar os atletas nos mais diversos processos ligados à educação. Desde que chegam ao clube, os garotos passam por uma espécie de investigação para as meninas (mais especificamente Rebeca) saberem se estão matriculados, onde estão matriculados, onde devem se matricular, qual a frequência na escola, quais as notas…

Passadas as questões ditas práticas, a pedagogia corinthiana também auxiliar os garotos em situações de dificuldade pessoal. Seja pela falta de tempo devido a treinos, jogos, viagens e convocações ou pela própria desmotivação gerada tanto pelo cansaço físico e mental quanto pela perspectiva de conforto financeiro no mundo da bola, os adolescentes jogadores de futebol veem nas provas e na frequência escolar grandes obstáculos.

“O adolescente tem muito problema com nota, rendimento na escola. Isso já levou a alguns casos de suicídio por ele achar que é pior, nota baixa, bullying”, explicou Rebeca.

Rebeca é a responsável pelas questões pedagógicas na base corinthiana

Rebeca é a responsável pelas questões pedagógicas na base corinthiana

Lucas Faraldo / Meu Timão

“A motivação do jogador de futebol tem de ser outra em relação ao ‘adolescente normal’, porque o monetário ele já tem. Mas ele sempre se acha inferior aos outros, que ele não tem capacidade de aprender física, química, matemática… Tento conversar com eles toda vez que eles se diminuem muito”, completou a pedagoga.

Esse turbilhão de pressões no mundo escolar tende a se intensificar durante o ensino médio: quando os colegas estão se dedicando mais aos estudos de olho em vestibulares, os atletas, por outro lado, se atolam cada vez mais nos compromissos da carreira futebolística.

Cobrança

“O jogador de futebol, inclusive o jovem em formação, tem uma rede por trás dele. Pai, empresário, patrocinador, clube, imprensa… São todos interessados e só ele para dar conta de tudo isso.” | Dominique Gonçalves

Jogador de futebol parece rótulo dado a marmanjo, certo? E é assim que garotos de dez anos de idade (às vezes até menos, como no caso das categorias de futsal) se sentem diante de inúmeras cobranças diretas e indiretas que caem sobre seus ombros no passar da juventude.

“Eles pulam etapas na adolescência. Isso faz falta lá na frente. O próprio amadurecimento. Amadurecem muito rápido. Atletas com 14 anos já têm responsabilidades como as de um pai. Muitos não têm a mãe por perto, não tem aquela vivência”, apontou Regiane.

“Você pega o Sub-10 e pergunta: por que você quer jogar bola? Para se divertir, é a resposta. No Sub-13, diante da mesma pergunta, a resposta é: para ser um jogador profissional, comprar uma casa para minha mãe, sustentar a família. Desde cedo vai gerando essa ansiedade, esse estresse”, contou Dominique.

Na psicologia, há o termo burnout para tratar de situações de esgotamento profissional. O atleta é tão estimulado desde cedo que chega ao Sub-17 ou Sub-20 e diz que não é mais aquilo que quer, está esgotado. O objetivo do NESP nesse sentido é fazer o jovem não perder a essência de jogar futebol: se divertir com uma bola nos pés.

Lesão

“Começou a não ir para a escola ou está muito para baixo? Vai perguntar o que aconteceu. Com certeza é DM.” | Rebeca Peridis

O maior desencadeador de problemas psicológicos e comportamentais em jovens jogadores de futebol é lesão, de acordo com a unânime opinião das três comandantes do NESP. Estar no departamento médico impossibilitado de treinar com bola e jogar costuma resultar numa mudança às vezes drástica de relacionamento de um garoto com o restante do clube.

A sensação da criança ou do adolescente é de exclusão: o atleta passar a treinar em locais e horários diferentes do restante da equipe, não faz parte da preleção, não viaja para os jogos e pouco vê os companheiros de time (que muitas vezes são os únicos amigos).

“Aí entra a auto-estima, trabalhar com ele que é um processo de recuperação, que a carreira não acabou”, destacou Dominique.

Ainda com relação aos problemas de lesão, há um específico cenário mais traumatizante ainda para os jovens jogadores: o período de transição de uma categoria para outra. Imagine um garoto do Sub-15 que se machuque prestes a completar 17 anos. Sua passagem para o Sub-17 fica comprometida, interferindo consequente e negativamente em toda sua carreira.

Fim do sonho

“O futebol não é pra todo mundo, o funil é muito estreito. Vão ficar poucos pelos gramados aí. A vida é assim.” | Regiane Ferreira

Regiane é assistente social do Corinthians há 12 anos

Regiane é assistente social do Corinthians há 12 anos

Lucas Faraldo / Meu Timão

Talvez uma verdade que quase todos saibam, desde torcedores, dirigentes e até jogadores profissionais, é a de que é muito difícil se tornar efetivamente um atleta bem sucedido de alto rendimento de futebol. Adivinhe qual é a pequena parcela que fecha os olhos para isso…

“O garoto da base sempre acha que vai virar jogador. Sempre. Não passa pela cabeça dele outro cenário, ainda mais quando já está num clube como o Corinthians”, explicou Rebeca.

E é aí que, de forma muitas vezes sutil, entra o NESP na história tentando solucionar potenciais problemas no futuro do hoje ainda jovem aspirante a jogador de futebol.

“Temos de motivá-los a estudar, mas não falando que é um plano B. Falamos que estudar vai ajudá-los a serem melhores jogadores de futebol, porque o atleta não enxerga que ele não vai ser jogador depois. Não acho que funciona muito falar ‘ah, e se não acontecer’, até porque trabalhamos aqui com a auto-estima deles”, argumentou a pedagoga.

Há também, é claro, os casos de jovens que simplesmente mudam de opinião ao longos dos (muitos) anos de categorias de base. A cabeça de uma pessoa de 20 anos, por exemplo, não é a mesma de quando tinha dez e sonhava ser um jogador de futebol.

“Isso me marca. Porque eu penso se poderia ter feito algo diferente. Chega a um clube tão grande e interrompe a história sem a gente saber como vai continuar. Acabamos perdendo o contato… E aí marca. Ficamos pensando no futuro deles”, divagou Dominique.

Há também os casos, ainda que não tão comuns, em que o ex-jovem jogador mantém sim contato com as “superpoderosas” do Timão. E daí saem boas histórias (que deixemos para detalhar outra hora), como a de um garoto que abandonou a profissão de jogador para se formar como engenheiro, a de outro que aproveitou a habilidade futebolística para conseguir bolsa de estudos numa universidade do exterior, a daquele que se tornou pai e anunciou no Facebook a desistência da carreira com 20 e poucos anos de idade…

“São conquistas diferentes. A gente fica feliz que chegue na Seleção, no profissional… Mas ver um atleta de formar no Ensino Médio, entrar na faculdade, se formar na faculdade… São conquistas diferentes que nos deixam felizes”, resumiu Regiane.

E por aí vai! Cada um numa direção, mesmo que diferente da planejada inicialmente. Porque no fim das contas sempre há um caminho. Muitas vezes além das quatro linhas.

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