
Gilmar Mendes é um ministro exemplar, como ficou mais do que demonstrado em 2017.
À frente do TSE, Gilmar Mendes liderou a divergência em relação ao voto do relator no julgamento da chapa Dilma-Temer de 2014: enquanto Herman Benjamin pediu a cassação da chapa por farta comprovação de crimes na campanha feita com dinheiro roubado, Gilmar não apenas votou pela absolvição como advogou por ela.
Confrontado por Herman acerca da fartura de provas, emendou: ?Abri o processo (de investigação da chapa de 2014), mas não é para cassar mandato?. Venceu.
Não foi o único episódio em que ele mudou de opinião ao sabor das conveniências políticas.
Antes defensor da prisão de condenados após julgamento em segunda instância, o ministro abraçou a posição contrária: não apenas mandou libertar condenados nessa situação, como passou a defender que o STF revisasse o assunto.
Gilmar também foi a reuniões não agendadas com Michel Temer, depois da delação da JBS — para discutir temas candentes, como adoção do sistema biométrico nas eleições, semipresidencialismo e financiamento de campanhas.
Manteve ainda intensas conversas com Aécio Neves, durante o período em que o senador era investigado. Aécio disse que eles trataram de reforma política.
Em 2017, Gilmar se tornou um campeão em concessões de liberdade a corruptos encarcerados temporária ou preventivamente pela Lava Jato e operações congêneres. Um dos casos mais notórios foi o de Jacob Barata Filho, o ?rei dos ônibus?, preso três vezes ? e três vezes libertado por Gilmar.
O MPF pediu a suspeição do ministro nos processos envolvendo o empresário porque o ministro havia sido padrinho de casamento da filha de Barata. Gilmar não se abalou:: ?Vocês acham que ser padrinho do casamento impede alguém de julgar um caso? Vocês acham que isso é relação íntima como a lei diz??
“Gilmar solta” é uma das frases do ano. No início de 2017, mandou soltar Eike Batista. No final do ano, ele soltou Anthony Garotinho, Antônio Carlos Rodrigues (presidente do PR) e Adriana Ancelmo. Na Segunda Turma do STF, comandou o arquivamento das denúncias da Lava Jato contra Benedito de Lira, Arthur Lira e Dudu da Fonte, do PP, e José Guimarães, do PT. No plenário do tribunal, Gilmar conseguiu que os processos dos peemedebistas denunciados juntamente com Michel Temer (Geddel Vieira Lima, Rodrigo Rocha Loures e Eduardo Cunha) fossem para a Justiça Federal de Brasília, em vez de seguir para Sérgio Moro, em Curitiba. Ele aproveitou a oportunidade para, mais uma vez, atacar a Lava Jato: “O populismo judicial é responsável por esse tipo de assanhamento”.
O ministro proibiu, ainda, as conduções coercitivas, um dos instrumentos legais mais utilizados pela Operação.
Gilmar bateu boca com o juiz Marcelo Bretas, com o colega Luís Roberto Barroso, mas o seu grande alvo foi Rodrigo Janot, por causa da delação da JBS.
Entre as várias delicadezas endereçadas publicamente a Janot, está o seguinte veredicto: ?Eu o considero o procurador-geral mais desqualificado que já passou pela história da Procuradoria?. Em privado, os adjetivos foram bem mais sonoros.
Em relação a Joesley e Wesley Batista, especificamente, Gilmar chamou-os de ?bandidos?, negou-lhes habeas corpus, apesar de criticar as prisões preventivas da Lava Jato, e disse que a delação da JBS foi um ?vexame institucional?.
No final do ano, a Veja revelou que ?os bandidos? haviam pagado 7,5 milhões de reais, em patrocínios, ao IDP de Gilmar. Mais: que o ministro recebeu dinheiro da JBS na sua conta pessoal. Mais: que a empresa tinha feito negócios com o irmão do ministro. Mais: que, antes da delação da JBS vir à tona, Gilmar havia jantado na casa de Joesley, em São Paulo, e Joesley havia ido a um churrasco na casa de Gilmar, em Brasília. Mais: que por encomenda da JBS, o IDP havia promovido um seminário para defender a anistia do caixa dois.
Esses Batista são mesmo chegados a um vexame institucional.