Na Reserva Extrativista Chico Mendes, no município de Xapuri, em meio às seringueiras centenárias e castanhais, uma pequena revolução começa a ser desenhada. Neste sábado, 30, a comunidade da reserva recebeu a visita de uma comitiva do governo do Acre para discutir a implantação de uma escola técnica na região, projeto sonhado há anos pelos moradores. Autoridades e moradores reuniram-se para imaginar juntos o futuro da educação na floresta. Um encontro em que passado e futuro se abraçaram, com a presença de líderes extrativistas guardiões da memória de Chico Mendes; de outro, gestores públicos trazendo ferramentas para construir um novo capítulo de desenvolvimento local.
Na terra de Chico Mendes, um sonho cultivado por décadas
A ideia de criar uma escola técnica dentro da reserva nasceu junto com a própria Resex, ainda nos ecos das lutas seringalistas. Criada em 1990, há 35 anos, a reserva foi resposta à visão de que a floresta era um problema a ser eliminado. Raimundo Mendes de Barros, o “Raimundão”, primo de Chico Mendes e hoje com 80 anos, lembra bem desse período. Líder da resistência seringueira nos anos 1970-80, ele personifica o ideal de viver da floresta sem destruí-la. Em sua colocação cultiva seringa, mandioca, milho e frutas, provando no dia a dia que é possível prosperar com a floresta em pé.

Na reunião, Raimundão recebeu a comitiva governamental com a humildade de quem vê um sonho antigo ganhar contornos reais. “Esperamos por isso por muito tempo”, disse o líder. A comunidade quer formação para seus jovens na própria terra, sem precisar enviá-los para fora. A esperança é que filhos e netos estudem e trabalhem onde nasceram, fortalecendo a comunidade.
No local, já existe a Escola Rural de Ensino Fundamental e Médio União, que oferece a educação às crianças e jovens da comunidade. O objetivo é expandir essa estrutura para agregar o ensino técnico aos jovens da área, evitando que precisem deixar a comunidade para buscar oportunidades em outros lugares.

Comunidade e governo desenham a educação voltada para a floresta
A comitiva foi encabeçada pelo secretário adjunto de Ensino da Secretaria de Estado de Educação e Cultura (SEE), Tião Flores, acompanhada pelo conselheiro do Tribunal de Contas do Acre (TCE/AC), Ronald Polanco, Fernando Melo, da Ouvidoria Fundiária da Procuradoria-Geral do Estado, Mara Lima, diretora de ensino do Instituto Estadual de Educação Profissional e Tecnológica (Ieptec) do Acre e de representantes da comunidade. Instituições diferentes, que uniram forças em torno de uma escola pensada para a realidade local. “O governo está aqui atendendo a uma solicitação da comunidade da reserva”, explicou Tião Flores. Ele lembrou que foi o conselheiro Polanco quem levou o pedido ao governador Gladson Cameli. “Sob a determinação de nosso governador, o secretário de Educação, Aberson Carvalho, nos enviou com a equipe de Ensino do Campo e do Ensino Médio para saber realmente a necessidade e anseio da comunidade, para que a gente possa atender a essa demanda através do governo do Estado, garantindo que o cuidado com as pessoas dessa região seja voltado às suas necessidades”, complementou.
Na conversa, a comunidade reforçou o desejo de cursos técnicos ligados ao manejo sustentável, beneficiamento de produtos e valorização da cultura local. “A gente não quer preparar nossos jovens para irem embora, e sim para ficarem e fazerem a comunidade crescer”, resume Sueli Ferreira, representando o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Xapuri.

Floresta e tecnologia de mãos dadas
O conselheiro do TCE, Ronald Polanco, destacou que a reserva amadureceu ao longo de três décadas para dar esse passo. “Estamos maduros para criar uma estrutura que vou chamar de ‘florestindustrial’, conjugar floresta com indústria e tecnologia.” Ele explicou que não se trata de trazer fábricas poluentes, mas de levar tecnologia para agregar valor à produção local. “Precisamos falar a língua do futuro aqui, sem medo. Identificar uma árvore pelo nome científico e também em linguagem Python se for preciso!”, provocou, em tom bem-humorado. A metáfora transmitiu a essência de que a futura escola técnica deve unir saberes tradicionais e competências digitais, com espaço para programação, drones e inovações que dialoguem com a floresta.

Formar o povo da terra para cuidar da terra
Na reunião, ficou claro que a escola técnica não será apenas um prédio, mas uma alavanca para fortalecer a terra e seu povo. “Este projeto é para nossos filhos e netos ficarem aqui e melhorarem o que é nosso”, afirmou Raimundão, durante fala. Após a conversa, o próximo passo será a elaboração conjunta das ementas e da proposta pedagógica, com participação ativa da comunidade e apoio técnico da SEE e do IEPTEC. “Sabemos que ainda há caminho a percorrer, mas aqui, no coração da floresta, deu-se um passo decisivo. Governo e comunidade sonharam, e executarão juntos, uma escola que ensina o desenvolvimento local e forma o povo da terra para cuidar da terra”, finalizou o secretário adjunto, Tião Flores.
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