A cobrança do pedágio eletrônico em sistema free flow na BR-364 em Rondônia entrou em funcionamento nesta segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, no trecho concedido à Nova 364, e chegou com valores que já provocam indignação em série.
O problema não é a tecnologia. O problema é a conta. Em um corredor vital para trabalho, saúde, comércio e escoamento da produção, a tarifa aparece como mais um custo empurrado para quem não tem alternativa de rota, nem opção de modal, nem margem para absorver aumento. E, quando a cobrança começa antes de a população enxergar uma transformação proporcional na pista, a sensação é uma só, o usuário virou caixa.
Quanto custa para o veículo leve
Segundo a ANTT, para automóveis, caminhonetes e furgões, as tarifas variam por trecho e partem de R$ 5,40, com a seguinte tabela divulgada
Candeias do Jamari R$ 5,40
Cujubim R$ 37,00
Ariquemes R$ 19,30
Ouro Preto do Oeste R$ 25,00
Presidente Médici R$ 12,50
Pimenta Bueno R$ 10,20
Segundo trecho de Pimenta Bueno R$ 35,40
É aqui que a revolta ganha forma. Em algumas áreas, o valor deixa de parecer pedágio e passa a soar como punição geográfica, você mora, trabalha e produz onde o Brasil precisa, e paga mais caro por isso.
A concessão por trás da tarifa
O leilão que entregou a concessão foi vencido pelo consórcio 4UM Opportunity com oferta única, com desconto simbólico de 0,05 por cento sobre a tarifa básica, conforme dados divulgados sobre o certame.
O contrato prevê 30 anos de concessão e um pacote de investimentos divulgado na casa de R$ 10,23 bilhões, incluindo obras e custos operacionais ao longo do período.
E, no papel, o plano é grande. A própria ANTT divulgou como previstos, entre outros itens, duplicações, faixas adicionais, passarelas e estruturas de apoio ao usuário.
O argumento oficial e a cobrança política que falta
A concessionária e a ANTT defendem que houve ações em 2025, atendimento operacional e bases de suporte, e há registro de investimentos e serviços executados antes do início da cobrança.
Só que a discussão pública central segue sem resposta clara, proporcionalidade. Se existe cobrança, a população quer enxergar resultado na pista, na segurança e no tempo de viagem, não apenas no comunicado e no aplicativo.
Free flow também vira armadilha para quem não é digital
No free flow, o veículo passa e paga depois. A própria ANTT informa prazo de até 30 dias após a passagem, com pagamento via aplicativo, site, Pix, cartão e totens nas bases.
O risco está em transformar desinformação em penalidade. A regra nacional do sistema foi atualizada para 30 dias e, após esse prazo, o não pagamento pode virar infração grave, com multa de R$ 195,23 e cinco pontos na CNH, conforme divulgação sobre as normas do Contran.
Ou seja, não basta ser caro. Pode virar caro com multa, para quem não consegue acompanhar cobrança, sinalização, aplicativos e prazos no meio da correria.
Duplicação é a urgência real da BR-364
A BR-364 é o eixo que sustenta Rondônia e, por isso, o pedágio só faria sentido para a população se viesse acompanhado de uma resposta visível para o maior gargalo da rodovia, a falta de duplicação em trechos críticos, onde a mistura de carretas, ônibus e veículos leves aumenta o risco de acidentes e torna a viagem mais lenta e tensa.
No projeto divulgado sobre a concessão, estão previstas duplicações e ampliação de capacidade, incluindo 107,57 km de duplicação, além de 190,597 km de faixas adicionais e 17,7 km de marginais no corredor entre Porto Velho e Vilhena.
É exatamente por isso que a cobrança, do jeito que começa, gera revolta. Porque o usuário passa a pagar agora, enquanto a sensação de melhoria estrutural mais esperada, que é duplicação, não aparece no mesmo ritmo na pista.
E aqui entra o ponto político e técnico que precisa ser cobrado em voz alta. Sem cronograma público e metas claras de duplicação por trecho, pedágio vira só arrecadação com discurso pronto. A população não está pedindo luxo. Está pedindo uma BR-364 menos perigosa e com fluxo compatível com o peso que Rondônia carrega no transporte.
O que Rondônia precisa exigir agora
Transparência diária na execução das obras e metas por trecho, com cronograma público simples
Revisão de valores e desenho de cobrança nos pontos mais sensíveis, com correção de distorções
Fiscalização firme e visível da ANTT, com resposta rápida a erros de leitura, cobranças indevidas e falhas do sistema
A BR-364 não é luxo. É necessidade. E necessidade não pode virar produto de prateleira, com preço alto e tolerância baixa para o usuário que só quer ir e voltar em segurança.