Respeito ao passado ao se construir o futuro / Revista Tricolor nº 51
Mas a pelota também rolou. O primeiro jogo autorizado do Estádio – embora não tenha caráter oficial – aconteceu naquele dia 25 de janeiro entre seleções de veteranos paulistas e veteranos cariocas. Foram 30 minutos (15 x 15) disputados sobre a grama alta do Morumbi, dos quais os locais saíram vencedores, com gols de Renato (14 minutos do primeiro tempo) e Pinga II (aos três do segundo tempo). Os cariocas descontaram com Anito, dois minutos depois.
Sillio del Debbio foi o árbitro e as equipes, as seguintes: Paulistas – Narciso, Lamparina e Norival (Argemiro); Caieira, Og e Dino; Pinga II, Lorena, Renato (Badi), Paulo e Álvaro; Cariocas (ou Bangu/Madureira): Alfredo (Nahem); Domingos e Laerte; Laleco, Brito e Mineiro; Mota, Anito, Moacir Bueno, Djalma Canhoto e Pedro Nunes.
Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Foi justamente nessa época (1956-1957), com tantos eventos que chamavam a atenção do público (dos quais também vale destacar os treinamentos do time profissional), que o apelido “Estádio do Morumbi” começou a se tornar popular – afinal para este bairro os convidados tinham que se deslocar nessas ocasiões.
Antes, quando se falava do terreno, usava-se mais o termo “do Jardim Leonor”, a gleba da qual a área são-paulina foi extraída das posses da Imobiliária Aricanduva. Pelas demarcações do município, entretanto, o lote oficialmente com este nome é nas vizinhanças e o Estádio sempre se manteve dentro dos limites do Morumbi.
Treino com muitos espectadores / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Mas até o estádio são-paulino ter um nome oficial e mesmo até o apelido ganhar renome, outros foram cogitados. Nenhum, contudo, que tenha sobrevivido em tinta e papel. Constam, por relatos de pessoas da época, como Jérson da Costa Ramos (ex-funcionário do Arquivo Histórico), que foram sugeridos nomes em honra ao povo paulista, como Estádio dos Bandeirantes e Estádio Nove de Julho. Luiz Cássio dos Santos Werneck teria sido voto vencido nessa questão (antes de ser posta em decisão do Conselho Deliberativo, vale dizer), pois defendia homenagem desse tipo.
A ideia de unir o povo paulista em torno do estádio, porém, ainda voltaria à tona, futuramente. O termo “Paulistão” para o carnê lançado em 1968 – como se verá, também um pretenso apelido para o Morumbi – não foi à toa. Muito antes, todavia, campanhas internas tentaram aproximar a população de todo o Estado. A maioria não saiu do papel e das pranchetas publicitárias.
Concepções artísticas nunca utilizadas (tudo bem que é rascunho, mas nem o escudo acertaram) / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Em 31 de outubro de 1956, a Prefeitura de São Paulo promulgou a lei nº 5.073 a qual concedia auxílio de até Cr$ 10.000.000,00 em apólices da dívida pública (com juros de 8% ao ano) às obras do Estádio do Morumbi. Os títulos foram negociados na bolsa de valores e renderam um valor líquido de Cr$ 5.473.000,00 ao clube, sendo o montante registrado em seu livro caixa diário sob o nome do Decreto nº 3.401 de 18 de dezembro de 1956 da Prefeitura de São Paulo.
Cabe ressaltar que a quantia em si é ínfima perto do despendido pelo Tricolor durante todo o processo de construção de seu estádio – como os números apresentados aqui bem revelam – e que essa ação não teve validade somente para um único clube, como a lei de 5.066 de 22 de outubro do mesmo ano revela, ao promulgar o mesmo auxílio ao Corinthians (sob Decreto nº 3374, de 5 de dezembro de 1956. Em verdade, todos os clubes grandes da capital foram agraciados por medidas idênticas, e o São Paulo não foi o primeiro – mas foi o único a fazer bom uso.
Medalhas de recordação do evento / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Visando manter os holofotes do povo no estádio, o São Paulo promoveu uma competição amistosa em junho de 1957, o Torneio Internacional de Futebol – Copa São Paulo. As partidas do certame se deram no Pacaembu e no Maracanã. Do estrangeiro foram convidados a participar o Dinamo Zagreb (então Iugoslávia), Belenenses (Portugal), Lazio (Itália) e Sevilla (Espanha). Flamengo, Corinthians e Vasco da Gama (reforçado com santistas) também tomaram parte, além do Tricolor.
Praticamente um campeonato mundial (como visto em 2000), as equipes foram divididas em dois grupos (Rio de Janeiro e São Paulo), os visitantes internacionais, porém, decepcionaram e não passaram da primeira fase. A fase final entre os clubes brasileiros não chegou a ser concluída, contudo, pelo pouco interesse dos mesmos em manter a competição sem os estrangeiros.
Erguido a partir do atual setor vermelho / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Entre 1956 e 1957 começou, verdadeiramente, a construção do maior estádio particular do mundo. E não foi ao acaso que a fila de títulos do Tricolor começou em 1958. Os esforços financeiros do Clube passaram a ser destinados, em grande parte, à fase mais difícil da construção do Estádio. Em pouco mais de um ano, o São Paulo desembolsou quase 100 milhões de cruzeiros – nos quatro anos anteriores gastou pouco mais da metade disso.
A instalações hidráulicas e elétricas (Sociedade Comercial e Instalador Scil Ltda., Cr$ 1.255.104,60) foram finalizadas em setembro de 1956. As fundações foram concluídas em setembro de 1957, por Cr$ 20.000.000,00. Seis vãos de gigantes (espaços entre as colunas de sustentação) foram terminados em seus três níveis e outros 19 vãos ao redor, até as cativas, em fevereiro de 1957. Até agosto de 1958 todos os níveis foram levantados, mas, somente em março de 1960, finalizados, com o acréscimo de outros cinco vãos. Tudo ao custo de Cr$ 78.681.571,60 (Civilsan).
Com essa configuração, o Morumbi teria sua inauguração parcial. Até lá, contudo, faltavam outros detalhes: a pista de atletismo, configurada por Dietrich Gerner, foi inaugurada em 9 de abril de 1960. As rampas de acesso provisórias e pisos do pavimento térreo foram entregues em 20 de julho, por módicos Cr$ 7.000.000,00 (Civilsan). Já os bancos das numeradas e cativas foram instalados por Cr$ 10.600.000,00 (Domingos Raele & Cia Ltda.). Para pregá-los, Laudo Natel teve que virar garoto propaganda de uma indústria (Parafusos Marpi S/A) e assim conseguir 400 mil unidades de graça.
Por fim, necessário para separar a torcida do canteiro de obras, o muro de entorno – com espaço para 47 painéis publicitários -, saiu por Cr$ 4.000.000,00 (Santoro & Alves). Triste foi a derrubada do velho Pinheirinho, retrato do lento avanço das obras. Reza a lenda que a esposa do presidente Laudo Natel, Maria Zilda, impediu o corte da árvore, pois nela havia um ninho de passarinho. Passaram-se quase oito anos até que, enfim, ele fosse derrubado por causa da construção do muro.
A instalação do gramado com o Pinheirinho ao fundo / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Comissão Pró-Estádio de 30 de abril de 1958: Presidente: Laudo Natel; Vices-Presidentes: Dr. Piragibe Nogueira; Monsenhor Francisco Bastos e Dr. Mário Tavares Filho; Secretário: Manoel Raymundo Paes de Almeida; Tesoureiro: Marcel Klaczko; Demais membros: Altino de Castro Lima, Amador Aguiar, Dr. Breno Caramuru Teixeira, Dr. Caetano Estelita Pernet, Dr. Carlos Alberto Gomes Cardim, Dr. Frederico Antônio Germano Menzen, General José Porphyrio da Paz, Dr. Jovelino Bahia, Júlio Brisola, Luís Campos Aranha, Dr. Manuel José de Carvalho, Dr. Paulo Machado de Carvalho, Dr. Paulo Planet Buarque, Dr. Pedro Franca Pinto, Dr. Roberto Barros Lima e outros.
O segundo lote do terreno do Morumbi (B, abaixo), de 25.936 m², foi adquirido em 13 de julho de 1959, também por doação, junto a Imobiliária Aricanduva, como o acordado nos termos de 12 de novembro de 1952 (Tabelião Firmo, Livro de Notas 644, pg 43). O terceiro e último lote (C), de 29.584 m² foi comparado pelo São Paulo junto aos mesmos proprietários pelo valor de Cr$ 8.875.200,00 em contrato firmado no dia 3 de março de 1965 (Tabelião Firmo, Livro de Notas 644, pg 40V).
Os três lotes do terreno do Morumbi / Última Hora de 5 de agosto de 1952
Longe de estar finalizado, a Comissão Pró-Estádio achou por bem inaugurar o estádio, mesmo incompleto, pois passaria a obter mais recursos provindos de bilheteria e também de ações publicitárias e promocionais, pelo destaque do Morumbi na imprensa. Além de, claro, saciar a vontade do são-paulino em ver e ocupar sua própria casa.
Inicialmente, cogitou-se chamar a equipe do Peñarol para a honra do primeiro jogo no novo estádio. A proposta teria sido levada pelo presidente da FPF, João Mendonça Filho, junto a uma oferta de 400 mil cruzeiros (e a promessa do Tricolor enfrentá-los também no Centenário, posteriormente), quando da ocasião do jogo da Seleção Brasileira contra a do Uruguai, neste país (9 de julho). Pela falta de tempo disponível para acertar os detalhes dessa partida, a princípio pensada para o dia 14 de julho, desistiu-se do evento.
Cartaz de divulgação do jogo / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Um mês depois, no dia 13 de agosto, o Sporting Club de Portugal aceitou o convite para ser o antagonista do São Paulo na inauguração do Estádio Cícero Pompeu de Toledo, no dia 2 de outubro, sem nenhum tipo de contrapartida financeira. Na mesma época, acertou-se a vinda do Nacional, do Uruguai, para um segundo jogo festivo.
Antes dos amistosos, porém, o São Paulo Futebol Clube apresentou o estádio oficialmente à imprensa. Cronistas da ACEESP foram convidados, no dia 25 de setembro, a conhecerem os setores de trabalho destes profissionais (cabines de rádio e televisão, tribuna de imprensa e tribuna oficial). Neste evento, inaugurou-se o busto de Cícero Pompeu de Toledo – hoje visto no Salão Nobre Luiz Campos Aranha.
INAUGURAÇÃO DO MAIOR ESTÁDIO PARTICULAR DO MUNDO
O Esporte, 1 de outubro de 1960
Com tudo preparado, chegou a data de inauguração: 2 de outubro de 1960. O convidado para repartir a honra desta festividade, o Sporting de Lisboa, havia chegado alguns dias antes e se preparado para o confronto hospedando-se na Ilha da Madeira, o Canindé, do clube irmão: a Portuguesa.
O evento teve início com a benção do novo estádio realizada pelo Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelo Motta e seguiu com o hasteamento das bandeiras do Brasil e de Portugal sob os acordes dos respectivos hinos nacionais. A solenidade prosseguiu ao soarem os clarins de Banda da Força Pública que deu “toque de silêncio” em homenagem póstuma ao idealizador e grande responsável pela construção do maior estádio particular do mundo, à época, o saudoso presidente Cícero Pompeu de Toledo, que nunca chegou a ver sua maior façanha concluída, falecido antes por grave doença.
O primeiro ingresso / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
A justa comoção deu lugar às salvas e hurras ao som do apito do árbitro, Sr. Olten Ayres de Abreu, que deu início a peleja internacional. São Paulo Futebol Clube contra Sporting Club de Portugal. O Tricolor, desfalcado de De Sordi e Dino Sani, contundidos, tinha na figura do capitão, o goleiro Poy, uma das principais figuras em campo. Gino e Canhoteiro também eram grandes nomes, mas o destaque e a principal honra da partida coube a outro jogador…
O primeiro gol da história do Morumbi nasceu no 12º minuto e foi assim narrado pela Gazeta Esportiva Ilustrada, daquela quinzena de outubro de 1960: “partindo a ação no flanco esquerdo, com Canhoteiro e Gino. Deste a bola rolou para Fernando Sátyro, isolado nas proximidades da área. O médio preferiu não cerrar, largando passe largo para a direita onde se achava deslocado Jonas, que executou um centro a meia altura. A bola foi encontrar Peixinho na pequena área envolvido por vários adversários. Enquanto estes ficavam na expectativa, o “filho de Peixe” testou baixo para as redes de Anibal”.
Peixinho deixando o nome na história / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
O gol foi o único da partida festiva. Como não poderia deixar de ser, o São Paulo começou a trajetória histórica no Morumbi com vitória. Peixinho, assim chamado por ser filho do antigo jogador, também artilheiro, Peixe, afirmou à mesma Gazeta Esportiva Ilustrada: “Hoje sou o mais feliz de todos os são-paulinos. Quando vi a bola “beijar” as redes, senti vontade de chorar, rir, pular feito um doido. E acho que não era para menos. De qualquer forma, meu nome vai ficar na história do nosso grande estádio. E eu, como jogador de futebol e como são-paulino, não quero mais nada na vida!”
Poucos lembram se Arnaldo Poffo Garcia ganhou ou não ganhou mais títulos por onde passou, mas todos lembram, claro, do lance que o eternizou. Do gol histórico, o primeiro gol do Morumbi. Tanto que o estilo de gol que realizou naquele dia ficou conhecido desde então, até hoje, como a jogada “peixinho” (pular “de cabeça” em direção a bola, e assim, atirá-la para o gol).
O Morumbi no dia 2 de outubro de 1960 / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Encerrada a partida, as personagens do jogo eram somente elogios ao novo estádio e ao São Paulo Futebol Clube: Gonzalez (técnico do Sporting) – “Estou satisfeito, muito satisfeito, por ter tido a felicidade de presenciar um espetáculo assim. Parabéns ao Tricolor”. Poy, feliz, disse: “Se eu parasse de jogar futebol hoje, nada teria faltado na carreira”.
Laudo Natel, o sucessor de Cícero Pompeu de Toledo, que levou a cabo a construção do Gigante do Morumbi e que costuma dizer que o Morumbi foi o fruto de fé e perseverança, completou: “O público prestigiou a nossa festa dando-nos a alegria de ver o estádio quase que totalmente lotado. Quero agradecer a são-paulinos, palmeirenses, corintianos, lusos, santistas, enfim, quero agradecer a todos que hoje aqui compareceram. Eles viveram conosco estes grandes momentos da vida do São Paulo e do desporto paulista e brasileiro”.
Ademar, Poy, Gildésio, Fernando Satyro, Riberto, Victor e Serrone (roupeiro); Peixinho, Jonas, Gino Orlando, Gonçalo e Canhoteiro / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
São Paulo Futebol Clube 1 x 0 Sporting Club de Portugal
SPFC: Poy; Ademar, Gildésio, Riberto, Fernando Sátyro, Victor, Peixinho, Jonas (Paulo Lumumba, depois Cláudio Garcia), Gino Orlando, Gonçalo e Canhoteiro (Roberto Frojuello). Técnico: Flávio Costa
SCP: Aníbal; Lino, Morato, Hilário, Mendes, Júlio, Hugo, Faustino, Figueiredo (Fernando), Diogo (Geo) e Seminário. Técnico: Alfredo Gonzalez
- Gol: Peixinho, 12′ do 1º tempo
- Árbitro: Olten Ayres de Abreu
- Renda bruta: Cr$ 7.868.400,00
- Renda líquida: Cr$ 7.779.900,00
- Público pagante: 56.448
- Público presente: 64.748
Logo no primeiro jogo, o Morumbi já estabeleceu um recorde: a renda obtida foi a maior na história do futebol no Brasil, até então.
Friedenreich entre os homenageados / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Os festejos de inauguração do Morumbi duraram uma semana. No domingo posterior ao debut, o São Paulo promoveu uma série de eventos em jornada de rodada dupla. Na preliminar, um time formado por veteranos do Tricolor (composto praticamente por integrantes do famoso Rolo Compressor, dos anos 40) enfrentou a Seleção Paulista.
Veteranos do São Paulo 0 x 3 Veteranos da Seleção Paulista
SPFC 1º tempo: King (Fernando); Savério e Renato (Castanheira); Herculano Squarza; Azambuja e Hélio Silveira (Hélio Leite); Mendes, Jofre (Américo), Eliseo (Antoninho Campos), Leopoldo e Vignola. 2º tempo: Gijo (Doutor); Piolim (Savério) e Virgílio (Turcão); Jacó, Rui e Noronha; Luizinho, Sastre, Ponce de León (Friaça), Remo e Teixeirinha.
Seleção 1º tempo: Lourenço, Falco, Lorico, Belacosa, Tinoco, Ceci, Levorato, Lima, Neco, Paulo e Agostinho. 2º tempo: Oberdan, Caieira, Lorico, Machado (Luizinho), Og Moreira e Ceci (Beni), Coutinho (Ministro), Lima, Araken, Paulo (Álvaro) e Hércules.
Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
150 jovens da fanfarra do Instituto de Educação Dr Washington Luis Pereira de Sousa, de Mogi das Cruzes – campeões do interior paulista desse tipo de parada musical – desfilaram na pista do Morumbi entre a partida preliminar e a principal.
A associação Ases de Rodas, que cuidava de pessoas com necessidade de uso de cadeiras de rodas, também foi homenageada: percorreram o anel de atletismo vestidos com camisas de todos os clubes integrantes da primeira divisão da FPF.
Os três convidados / Álbum de Inauguração do Morumbi
No jogo de fundo, o Tricolor enfrentou o Nacional do Uruguai. Para esta partida foram convidados jogadores de outros times para alinharem-se com a camisa são-paulina a fim de que o Morumbi fosse apresentado aos torcedores desses clubes. Pelé foi a ausência sentida de última hora, contundido (Olavo, do Corinthians, pelo mesmo motivo também faltou).
Julinho Botelho e Djalma Santos, do Palmeiras, Almir Pernambuquinho e Ari (este, ficou somente no banco de reservas), do Corinthians, porém, vestiram o manto e ajudaram o Tricolor a golear os uruguaios por 3 a 0, gols de Canhoteiro e Gino Orlando (duas vezes).
São Paulo Futebol Clube 3 x 0 Club Nacional de Football
SPFC: José Poy; Djalma Santos, Gildésio (Gérsio) e Riberto; Fernando Sátyro e Victor; Julinho Botelho, Almir Pernambuquinho, Gino Orlando, Gonçalo e Canhoteiro.
CNF: Sosa; Troche, Di Fábio, Messias (Martinez), Ruben Gonzalez, Collazo, Hector Nuñez (Avalo), Hector Rodrigues (Aloes), Rodrigo, Leopardi e Escalada.
- Gols: Canhoteiro, 24/1; Gino Orlando, 4/2; Gino Orlando, 44/2
- Árbitro: Romualdo Arppi Filho
- Renda bruta: Cr$ 3.099.000,00
- Renda líqüida: Cr$ 3.000.010,00
- Público pagante: 22.954
FÉ E PERSEVERANÇA – POR LONGOS 18 ANOS
Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Em 1961, o Morumbi se conectou ao resto do mundo. A linha de ônibus Largo de Pinheiros-Morumbi foi inaugurada em 21 de setembro. Neste ano o São Paulo ainda desembolsaria Cr$ 46.152.000,00 com a construção de duas torres de concreto e instalação de cabines e outras instalações elétricas (Civilsan). Iluminação, contudo, só veio, e de modo provisório, em 1968. Por fim, construiu mais 6 vãos de arquibancada, ao valor de Cr$ 114.736.436,00 (Cia Construtora Nacional S/A).
Com o Morumbi a meio caminho andado, a diretoria voltou a atenção para o patrimônio social. Em 26 de outubro, o Conselho Deliberativo instituiu o Título Patrimonial, ao custo de Cr$ 100.000,00 a adesão. Logo de cara, 7.500 foram vendidos. O título financiou a construção do parque aquático, dos vestiários, das instalações hidráulicas, elétricas, de manutenção e de tratamento de águas, orçada em Cr$ 55.126.486,00 (Civilsan). Quadras e outros empreendimentos arredondaram a conta para cerca de 100 milhões. O Complexo Social foi inaugurado em 30 de setembro de 1962.
Propaganda dos títulos patrimoniais / O Estado de São Paulo de 27 de outubro de 1965
Relatórios financeiros da Construção do Estádio do Morumbi até 1961.
As principais despesas da construção do Morumbi, assim descritas:
Anteprojetos de Construção: Cr$ 120.000,00
Projeto e execução de Vilanova Artigas: Cr$ 100.000,00
Terraplanagem: Cr$ 3.270.396,00
Fundações: Cr$ 20.000.000,00
Galeria de águas: Cr$ 2.410.279,00
Sistema de drenagem: Cr$ 4.382.437,00
Túneis, irrigação e outras obras: Cr$ 6.010.400,00
Gigantes 49-55, cativas inferiores 45-49 e 55-70: Cr$ 78.681.571,60
Hidráulica e Elétrica: Cr$ 1.255.104,60
Preparatórios de inauguração: Cr$ 7.000.000,00
Muro de entorno: Cr$ 4.000.000,00
Outros (material de construção, bancos, etc): Cr$ 114.239.424,60
Total: Cr$ 241.469.612,80
Enquanto que as principais fontes de receitas foram as seguintes:
Cadeiras cativas: Cr$ 250.095.750,00
Títulos Patrimoniais: Cr$ 191.438.700,00
Contrato com Companhia Antárctica Paulista: Cr$ 5.000.000,00
Total: Cr$ 446.534.450,00
Em verdade, o valor arrecadado pela Campanha de Títulos Patrimoniais foi investido, também e até 1962, na construção do Complexo Social. Sendo assim, os rendimentos obtidos pela venda de cadeiras cativas (resultado do montante lançado no passivo, no quadro abaixo, subtraída a quantia ainda por receber, no ativo) e pelo contrato de concessão de exploração de bares e lanchonetes com a Companhia Antárctica Paulista – um total de 255.095.750,00 – foram os principais fomentadores da Construção do Estádio do Morumbi, estipulado, até então, em Cr$ 241.469.612,80, conforme também consta no balanço abaixo ilustrado sob o item “Construção da Praça de Esportes”.
O primeiro “busão” que partiu para o Morumbi / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Balanço patrimonial da Comissão Pró-Estádio até 1961
Ativo
Bens Imobilizados
Bens imóveis: Cr$ 9.575.200,00
Móveis e utensílios: Cr$ 1.154.567,50
Construção da Praça de Esportes: Cr$ 241.469.612,80
Total Cr$ 252.199.380,30
Valores Disponíveis
Caixa: Cr$ 1.259.047,50
Bancos: Cr$ 7.792.988,90
Total: Cr$ 9.052.036,40
Créditos da Comissão
Contas correntes devedores: Cr$ 350.687,60
Cadeiras Cativas a Integralizar: Cr$ 28.243.350,00
Títulos Patrimoniais a Integralizar: Cr$ 356.021.300,00
Total: Cr$ 384.615.337,60
Valores em Transição
Obras Contratadas: Cr$ 133.337.300,60
Saldo de exercício: Cr$ 196.730.226,70
Total: Cr$ 330.067.527,30
Final: Cr$ 975.934.281,60
Passivo
Fundo de Garantia
Cadeiras Cativas: Cr$ 279.199.100,00
Títulos Patrimoniais: Cr$ 547.460.000,00
Total: Cr$ 826.659.100,00
Responsabilidades da Comissão
Conta correntes credores (curto prazo): Cr$ 6.899.984,00
Títulos a pagar (longo prazo): Cr$ 109.019.757,60
Hipotecas a pagar (longo prazo): Cr$ 26.995.000,00
Compromissos por compra de terrenos (longo prazo): Cr$ 860.440,00
Total: Cr$ 143.775.181,60
Passivo em Transição
Contas de concessões futuras: Cr$ 5.500.000,00
Final: Cr$ 975.934.281,60
O período que se seguiu foi de grande estagnação. Os recursos financeiros líquidos rapidamente foram consumidos. Os valores obtidos pelos títulos patrimoniais e cadeiras cativas eram significativos, mas obtidos a longo prazo. O reduzido capital foi investido na compra do último lote do terreno, de 29.584m², junto a Aricanduva, para expansão do Social. Cr$ 8.875.200,00 pagos em suaves parcelas.
Sem o suficiente em caixa, o Morumbi nada avançou de 1961 a 1968. No período em que o Tricolor mais se dedicava à areia, pedra e cimento, contudo, surgiu um ídolo incrível: Roberto Dias. Certa vez, o técnico são-paulino, Aimoré Moreira, ao ser questionado sobre o que ele precisaria pra transformar o time em um clube novamente campeão, respondeu: Dez Dias.
Quadros que atestam: de 1961 a 1968 só um setor construído / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Talvez, o ícone dessa década seja melhor explicado por este simples poema de Alex Popst:
Nos anos sem casa…
No tempo sem teto.Nos anos de
cimento;
chumbo
e concreto.Dias de paz…
Classe
E Roberto.
O primeiro sistema de refletores / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Foi justamente neste período de poucos avanços que o presidente do São Paulo, Laudo Natel, iniciou sua carreira política. Eleito Vice-Governador do Estado, por chapa independente, em 1962, assumiu o cargo majoritário por oito meses, entre 1966 e 1967. Após cumprir seu mandato, não voltou a desempenhar função pública até 1971, após a conclusão do Gigante.
Patrono do Tricolor, Laudo Natel foi o homem que tornou o sonho do Morumbi realidade. Moço do interior, cresceu na cidade grande como diretor de banco. Pelo talento administrativo, Cícero Pompeu lhe trouxe ao clube, a princípio como tesoureiro, em 1951. De cara, Natel instituiu a publicação de todos os balanços do clube – feito que ocorre desde 1952 anualmente, em veículos de grande porte. Assim, rapidamente assumiu a presidência do São Paulo, ocupando-a por sete mandatos, de 1958 à 1971. Em 1970, após 18 anos de obras e sacrifícios, Laudo entregou aos são-paulinos o maior patrimônio. Para coroar, ainda mobilhou a casa com grandes ídolos, como Gerson e Pedro Rocha, além de títulos (Paulistas de 1970 e 1971).
Na época da inauguração: ninguém nas vizinhanças / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Não contando com qualquer ajuda governamental, o Morumbi só voltou a crescer, e a passos largos, em 1968, com o advento do fantástico Carnê Paulistão. “A Grande Jogada é Construir o Paulistão” foi uma campanha idealizada por Hélio Setti e Oswaldo Molles. Na TV Excelsior, nos intervalos das novelas, sorteava-se prêmios para aqueles que estivessem em dias com as suas mensalidades.
O nome Paulistão foi uma tentativa de se apelidar o Estádio Cícero Pompeu de Toledo como simbolo de toda a população do Estado. Apesar do sucesso do produto comercial, a alcunha, em si, jamais pegou. Nesse aspecto, o estádio sempre foi o Morumbi.
Com tiragem inicial de 100.000 unidades, o carnê foi tão bem sucedido que ganhou outras seis séries, totalizando 700.000 carnês, vendidos a NCr$ 5,00 (cada qual com 12 prestações no mesmo valor). Outros clubes, posteriormente, adotaram a mesma prática, inclusive pressionando o São Paulo a romper sua patente. Os carnês concorrentes não vingaram, e o Tricolor, então, se comprometeu a repassar-lhes uma quota de seus ganhos.
Com as finanças em dia (sobrou dinheiro até para contratações de craques como Gérson, Toninho Guerreiro, Pedro Rocha, Forlán…), o que o São Paulo não pôde realizar em oito anos, o fez em dois. Ao custo de NCr$ 6.890.000,00 (Cia Construtora Nacional S/A, Servix Engenharia S/A & Enbasa Engenharia e Comércio S/A)), o estádio enfim foi concluído no dia 20 de dezembro de 1969. Só faltava a festa para a entrega da obra concluída, que aconteceu de 25 de janeiro de 1970.
Anos 70: o bairro ainda é deserto / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
A inauguração definitiva do estádio se deu em partida contra o Porto, de Portugal. O Estádio possuía, então, capacidade para 149.408 pessoas.
SÃO PAULO Futebol Clube 1 x 1 Futebol Clube do PORTO
SPFC: Picasso; Édson Cegonha (Cláudio Deodato), Jurandir, Roberto Dias e Tenente; Lourival e Gérson; Miruca, Zé Roberto (Téia),Toninho Guerreiro (Babá) e Paraná. Técnico: Zezé Moreira
Gols: Miruca, 35’/1.
FCdP: Vaz; Acácio, Valdemar, Vieira Nunes e Sucena; Pavão e Gomes; Chico (Celinho), Pinto (Ronaldo), Rolando e Nóbrega. Técnico: Elek Schwartz.
Gol: Vieira Nunes, 32’/1.
- Árbitro: José Favilli Neto
- Renda: NCr$ 440.258,00
- Público: 107.869 pagantes
Gerson contra o Porto / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube
Realmente, como diz Laudo Natel, a construção do Morumbi foi uma obra de igreja, realizada com o que se podia, aos poucos, pela venda de ideias, fazendo jus ao um belo mote: Fé e Perseverança. E já que era um sonho, que fosse grande! Sempre fazendo o possível primeiro, e o impossível depois.






























