A BR-364 não é apenas uma rodovia. Ela é a espinha dorsal da economia de Rondônia. Por ela passam diariamente caminhões carregados de soja, milho, carne, insumos agrícolas e praticamente tudo que abastece o estado. É uma estrada estratégica para o país. Mas para quem trafega por ela todos os dias, a realidade é outra: insegurança, acidentes e um sentimento crescente de abandono.
Os números são alarmantes. A rodovia registra, em média, cerca de dois acidentes por dia em diferentes trechos do estado. Em muitos casos, são colisões graves envolvendo carretas, veículos de passeio e ônibus. Em outros, tragédias silenciosas que se repetem ao longo dos anos, como atropelamentos em áreas urbanas por falta de passarelas e infraestrutura adequada.
A situação se agrava porque a BR-364 concentra um volume de tráfego muito superior à estrutura que possui hoje. A rodovia foi projetada décadas atrás para uma realidade completamente diferente da atual. Hoje, ela suporta o peso de um agronegócio que cresce a cada safra e de uma população que depende da estrada para tudo: trabalhar, estudar, transportar mercadorias e circular entre cidades.
Mesmo com essa importância estratégica, grande parte da rodovia ainda opera com pista simples. Em trechos movimentados, caminhões disputam espaço com carros de passeio em ultrapassagens arriscadas. Qualquer erro, qualquer descuido ou qualquer falha na pista pode resultar em tragédia.
Nos últimos anos, a promessa de mudança veio com a concessão da rodovia à iniciativa privada. O contrato prevê bilhões em investimentos ao longo das próximas décadas. A expectativa criada foi de que finalmente a BR-364 passaria por uma transformação estrutural, com melhorias, modernização e aumento da segurança.
Mas a concessão rapidamente se transformou em um novo foco de polêmica.
A principal crítica feita por entidades, lideranças e usuários da rodovia é simples: a população não aceita pagar pedágio antes de ver melhorias concretas na estrada. Para muitos motoristas e transportadores, a sensação é de que a cobrança chegou antes das obras.
Esse questionamento ganhou ainda mais força quando a Justiça Federal determinou a suspensão da cobrança de pedágio após identificar problemas na execução do contrato de concessão. A decisão judicial reforçou uma percepção que já circulava entre usuários da rodovia: a de que o modelo adotado precisa ser mais transparente e alinhado com os interesses da população.
A BR-364 é muito mais do que um corredor logístico. Ela conecta cidades, sustenta economias locais e influencia diretamente a vida de milhares de famílias rondonienses. Quando a estrada não funciona bem, todo o estado sente o impacto.
Cada acidente não é apenas um número em estatísticas. São vidas interrompidas, famílias destruídas e histórias que terminam às margens de uma rodovia que deveria representar desenvolvimento, não risco.
A discussão sobre a BR-364 precisa sair do campo das promessas e entrar definitivamente no campo das soluções. Rondônia não pode continuar convivendo com uma rodovia sobrecarregada, perigosa e que ainda gera dúvidas sobre o modelo de gestão adotado.
A estrada que sustenta a economia do estado precisa, antes de tudo, garantir segurança para quem passa por ela todos os dias.
Porque desenvolvimento de verdade não pode vir acompanhado de tragédias na beira da estrada.
Da Redação
