Existe um tipo de político que perde a eleição antes de ela começar. Ao longo de 2025 e 2026, o governador Marcos Rocha mostrou que domina essa arte. Em pouco mais de um ano, ele rompeu com o vice-governador e com o chefe da Casa Civil, desistiu da própria candidatura ao Senado, comprometeu as candidaturas da esposa e do irmão, construiu um sucessor e o abandonou na reta final. No domingo, 4 de outubro, a conta chegou: Marcos Rogério (PL), seu adversário histórico, foi eleito governador no primeiro turno com 56,86% dos votos válidos.
Não é um acidente. É uma sequência, e vale contá-la na ordem em que aconteceu.
Um governo sem folga e sem poder político
Os números ajudam a medir o tamanho do problema. Segundo a pesquisa Quaest realizada de 20 a 23 de setembro, o governo Rocha tinha 46% de aprovação e 31% de desaprovação. Menos da metade do eleitorado aprova o governador no fim do mandato, e isso é pouco para quem pretendia eleger o sucessor. Ainda assim, era um patrimônio que um articulador competente teria usado para ordenar a sucessão, montar uma chapa competitiva e garantir lugar na mesa do poder de 2027.
Rocha fez o contrário. A aprovação de um governo é uma fotografia, e a dele já não saía folgada. A articulação política é o filme, e o filme que Rondônia assistiu foi uma sucessão de rompimentos que ele mesmo produziu.
Primeiro ato: a guerra com o vice e com a Casa Civil
A crise com o vice-governador Sérgio Gonçalves e com o irmão dele, Júnior Gonçalves, então chefe da Casa Civil, é o ponto de partida. A saída turbulenta de Júnior do comando da Casa Civil, em 2025, foi apontada pela imprensa local como o marco da ruptura dentro do governo. Em seguida veio o episódio de Israel: com o governador fora do país durante o conflito entre Israel e Irã, Sérgio Gonçalves foi à Justiça, em 30 de junho de 2025, contra a lei que permitia a Rocha exercer o cargo mesmo estando fora do estado.
A reação do governador foi imediata. Em 7 de julho de 2025, Rocha exonerou o vice da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec), cargo que Sérgio ocupava havia dois anos e meio, e classificou a atitude do vice como covarde, segundo relato do portal Tudo Rondônia.
Pode-se discutir quem tinha razão na briga jurídica. O que não se discute é o resultado político. Rocha transformou em inimigo declarado o titular da segunda cadeira do Executivo e um operador que, segundo o colunista Herbert Lins, do Rondônia Dinâmica, foi responsável por um dos melhores desempenhos eleitorais do União Brasil em 2022: um governador, quatro deputados federais e cinco estaduais. Em política, quem sabe somar não dispensa um operador assim. Rocha o expulsou.
Segundo ato: o Senado que virou refém do rancor
As pesquisas mostravam Marcos Rocha competitivo na disputa ao Senado, com algo entre 20% e 24% das intenções de voto. Para concorrer, porém, ele precisaria deixar o governo, e o governo passaria para o vice, justamente a pessoa que, na avaliação do governador, o havia traído.
Em 12 de janeiro de 2026, Rocha anunciou que não seria candidato ao Senado. A justificativa, segundo a imprensa, foi evitar entregar o comando do estado ao vice. O governador disse, em essência, que seria muito difícil passar Rondônia a quem ele considerava um traidor.
O preço foi alto e ele mesmo o reconheceu. Ficando no cargo, Rocha comprometeu os planos da esposa, Luana Rocha, de disputar uma vaga de deputada federal, e do irmão, Sandro Rocha, de concorrer a deputado estadual, já que a regra eleitoral impede candidaturas de parentes de quem ocupa o Executivo na mesma circunscrição. Quatro projetos de uma mesma família foram sacrificados por uma briga: o do próprio governador, o da esposa, o do irmão e o de uma transição civilizada.
Em abril de 2026, o rompimento se aprofundou: Rocha exonerou em massa os aliados do vice nos quadros do governo, em edição extraordinária do Diário Oficial. Sérgio Gonçalves, que tentava ser o candidato do União Brasil ao governo, ficou isolado. Rocha, que hoje preside o PSD em Rondônia, sinalizou apoio a outro nome.
Terceiro ato: o sucessor escolhido e a trajetória de Adailton Fúria
O nome escolhido foi Adailton Fúria, e não faltava biografia para sustentar a aposta. Advogado, nascido em Cacoal em 1986, Fúria foi vereador entre 2013 e 2016, elegeu-se deputado estadual em 2018 com 12.859 votos e, em 2020, conquistou a prefeitura de sua cidade. Em 2024, foi reeleito com mais de 80% dos votos, 40.270 no total. Em abril de 2026, deixou a prefeitura para disputar o governo do estado.
Poucos políticos de sua geração chegaram ao ponto de largada com um currículo assim: uma gestão municipal aprovada nas urnas por oito em cada dez eleitores, capacidade de crescer eleição a eleição e juventude. Era o tipo de ativo que um articulador de verdade protege, cultiva e alavanca.
Em 1º de agosto, na convenção do PSD em Porto Velho, Rocha subiu ao palco, declarou apoio e disse desejar que Fúria fizesse a campanha do jeito dele. A frase, relida hoje, parece mais uma despedida do que um aval.
Quarto ato: a troca de cavalo na reta final
Em setembro, com a campanha na rua, o colunista Herbert Lins escreveu que Rocha queria um candidato disposto a defender os avanços do governo, especialmente em áreas sensíveis como saúde e segurança, e que Fúria parecia não querer tocar essa partitura. Na sabatina da SICTV, Fúria disse que havia perdido o apoio do governador, que agora estaria apoiando outro candidato, o ex-prefeito de Porto Velho, Hildon Chaves. Ele relacionou o afastamento à sua posição contrária à privatização da Caerd, mas tratou essa ligação como possibilidade, não como fato.
O portal Expressão Rondônia relatou que a troca teria chegado às ruas, com a substituição de materiais de campanha de Fúria pelos de Hildon. Até onde a imprensa consultada registrou, o governador não confirmou publicamente a mudança. Mas basta o que é público: o candidato apoiado numa convenção em 1º de agosto apareceu, seis semanas depois, dizendo que havia sido abandonado.
Se a leitura de Fúria estiver correta, o erro é de manual. Em política, apostar em dois cavalos para a mesma corrida é o jeito mais rápido de perder as duas apostas, e de fazer o eleitor desconfiar do dono dos cavalos. Rocha prejudicou Fúria, cuja candidatura estacionou nos mesmos 21% que tinha em agosto, e não fez de Hildon um candidato competitivo, que terminou com pouco mais de 14%.
O resultado: pista livre para Marcos Rogério
| Candidato | Partido | % dos válidos |
|---|---|---|
| Marcos Rogério | PL | 56,86% |
| Adailton Fúria | PSD | 20,06% |
| Hildon Chaves | União Brasil | 14,22% |
| Expedito Netto | PT | 7,71% |
Seria desonesto afirmar que Marcos Rogério só venceu por erro alheio. A pesquisa Quaest mostrava que ele cresceu 13 pontos em relação à rodada anterior e chegou a 37% antes da eleição, com 19% de indecisos. Fez uma campanha forte, e a soma de todos os adversários (43,14% dos votos válidos) ficou abaixo dos seus 56,86%. Unir o campo adversário não bastaria para vencê-lo.
O que a divisão custou não foi apenas voto. Foi a possibilidade de um segundo turno, em que o debate se reorganiza, a máquina se mobiliza e o eleitor ainda pode ser conquistado. Os potenciais herdeiros do governo chegaram à largada brigados com o padrinho, divididos entre si e sem um nome capaz de reunir o campo contra Rogério. Quem dividiu o campo entregou o terreno. E o político que a imprensa local descreve como o maior crítico de Rocha ganhou sem sobressalto e sem desgaste.
O veredicto
Na avaliação da Redação do Folha Nobre, Marcos Rocha reúne hoje dois títulos pouco invejáveis. O primeiro é o de pior articulador político que Rondônia já teve: em pouco mais de um ano, sacrificou o próprio plano de ir ao Senado, os planos eleitorais da esposa e do irmão, a relação com o vice e com um dos operadores mais eficientes de seu partido, a candidatura do sucessor que ele mesmo ungiu e, no fim, a chance de chegar a 2027 com algum poder de barganha.
O segundo é o de pior governador da história do estado, e aqui o critério é o capital político desperdiçado. É um julgamento editorial, e o leitor tem todo o direito de discordar. Mas os números ajudam: um governo que menos da metade do eleitorado aprova (46%, segundo a Quaest) e que não consegue eleger o sucessor, nem proteger os próprios aliados, nem sequer garantir um segundo turno, é um governo que desperdiçou o que tinha.
Política é aritmética de pessoas. Soma-se, nunca se subtrai. Marcos Rocha passou os últimos meses subtraindo, e o resultado está nas urnas. A lição vale para qualquer gabinete do estado: quem não sabe construir alianças não perde apenas eleições. Perde o direito de escolher o que acontece depois.
Foto de capa: Marcos Rocha em 2022. Imagem: União Brasil Rondônia, domínio público (Wikimedia Commons).
Folha Nobre
