O deputado federal Amom Mandel (Republicanos-AM) foi reeleito no domingo (4), mas com menos da metade dos votos de quatro anos atrás. Pela apuração divulgada pelo TRE-AM, ele teve 119.480 votos (5,64% dos válidos) e ficou em 5º lugar entre os oito deputados federais eleitos pelo Amazonas. Em 2022, ele havia sido o mais votado do estado, com 288.555 votos (14,49%). A diferença é de 169.075 votos, uma queda de cerca de 59%.
No intervalo entre as duas eleições, Amom virou notícia por falas duras contra vereadores, por uma proposta de emenda à Constituição que mexe com as câmaras municipais e, em abril, por um cartaz colado na porta de seu gabinete em Brasília. Esta reportagem reúne o que está documentado sobre cada um desses pontos e separa o que é fato do que é hipótese.
Os números: do 1º ao 5º lugar
Os cinco primeiros colocados na disputa pela Câmara dos Deputados no Amazonas, segundo o TRE-AM, foram: Sargento Salazar (PL), com 212.948 votos; Sidney Leite (PSD), com 138.498; Adail Filho (MDB), com 137.148; Fausto Jr (União), com 122.197; e Amom Mandel (Republicanos), com 119.480.
Há outro dado de comparação: em 2024, Amom disputou a Prefeitura de Manaus, teve 210.643 votos (19,10% dos válidos) e ficou em terceiro lugar, sem ir ao segundo turno, segundo o Portal AM1. Os cargos, os adversários e o eleitorado são diferentes, então os números não são diretamente comparáveis.
Na própria chapa, Amom foi o mais votado do Republicanos no estado. O partido ultrapassou o coeficiente eleitoral e garantiu uma das oito cadeiras. Silas Câmara, com sete mandatos consecutivos, ficou de fora, com cerca de 91 mil votos na apuração parcial divulgada pelo AM1.
O cartaz: “gabinete fechado para vereadores”
Na terça-feira, 28 de abril, Amom colou na porta de seu gabinete na Câmara dos Deputados um aviso impresso, com o timbre “Gabinete do Amom”. O texto diz que o gabinete está fechado para vereadores e manda que eles vão “trabalhar pelo povo”. A imagem circulou nas redes sociais naquela semana, em que representantes de câmaras municipais estavam em Brasília, e foi registrada pelo Congresso em Foco em 29 de abril.
Em publicação no Instagram (@eusouamom), o deputado explicou o gesto. Escreveu que, por ter sido vereador, sabe “o que é isso” e que o sistema precisa mudar. Afirmou que os vereadores que estivessem “turistando em Brasília” e quisessem ir ao gabinete reclamar da PEC dele “não serão bem-vindos”, e fechou o texto com a frase “Abaixo aos que não trabalham”. Segundo o Congresso em Foco, ele também disse que muitos desses vereadores vêm a Brasília com hotéis e passagens custeados com recursos públicos.
A reportagem do Congresso em Foco não identifica nenhum vereador pelo nome, e não há registro, nas matérias consultadas, de que alguém tenha sido impedido de entrar no gabinete. O que está documentado é o aviso na porta e a declaração pública do deputado.
A PEC e as falas anteriores
O cartaz veio depois de um mês de atritos. Em entrevista ao programa Poder & Opinião, em 7 de abril, Amom disse que, ao virar vereador de Manaus (de 2021 a 2023), concluiu que o cargo tem pouco poder e usou uma expressão de baixo calão para compará-lo ao de deputado federal. A fala teve repercussão negativa no Amazonas, com críticas de deputados estaduais da Aleam, e, segundo o Portal do Generoso, de vereadores de Manaus e de cidades do interior, que a classificaram de “desrespeitosa à função legislativa”. O texto do portal não identifica nenhum deles pelo nome.
No dia 10 de abril, Amom anunciou a PEC. A proposta transforma os vereadores de cidades com até 30 mil habitantes em conselheiros, sem salário fixo, só com ajuda de custo por sessão. Também prevê repasse automático de recursos ao Legislativo municipal, limite de 10% para cargos de livre nomeação, garantias para a minoria e orçamento participativo. Ele disse ter o apoio inicial de 20 a 30 deputados; são necessárias 171 assinaturas para a PEC começar a tramitar. O BNC Amazonas informou que o plano era protocolar o texto até o fim de maio e concluir a coleta de assinaturas em outubro. Não localizamos a confirmação de que a proposta tenha sido protocolada.
O que explica a queda?
Nenhuma pesquisa ou análise publicada até agora mede quanto o conflito com os vereadores pesou na votação. O que existe são fatos que ajudam a montar o cenário:
2022 foi um resultado fora da curva. O BNC Amazonas classificou a votação daquele ano como excepcional e disse que a de 2026 não repete o primeiro lugar. O texto não apresenta dados que comprovem as causas da queda.
Mudança de partido e campanha sem verba nacional. Amom deixou o Cidadania e se filiou ao Republicanos. Segundo o AM1, com base na prestação de contas, ele foi o único candidato do partido a deputado federal no Amazonas que não recebeu recursos da direção nacional. Arrecadou R$ 794,4 mil, todos de pessoas físicas, incluindo R$ 80 mil do próprio candidato. Os demais candidatos do partido receberam verba nacional. O deputado afirmou que as negociações para entrar no partido passaram pelo presidente nacional, Marcos Pereira, e pelo presidente da Câmara, Hugo Motta; o AM1 não registra uma explicação dele sobre a ausência de repasse.
O desgaste com vereadores. Vereadores costumam fazer parte da estrutura de campanha de candidatos a deputado nos municípios, o que torna o atrito com a categoria uma hipótese plausível para parte da queda. Mas é só uma hipótese: não há dado que a comprove. Pela apuração de 99,61% das urnas, Amom teve 94.496 votos em Manaus e 24.510 no interior, segundo o BNC Amazonas; o recorte equivalente de 2022 não foi encontrado para comparação.
O Folha Nobre não localizou, até a publicação, manifestação do deputado sobre a queda de votos. O espaço segue aberto.
Com informações de TRE-AM, Congresso em Foco, BNC Amazonas, Portal AM1 e Portal do Generoso.