Artigo de Karina Cury De Marchi, médica infectologista
O Outubro Rosa é muito mais do que uma campanha de conscientização. É um movimento de saúde pública que reforça a importância da informação, do diagnóstico precoce e do acesso ao cuidado para milhares de mulheres. Surgida nos Estados Unidos na década de 1990, a iniciativa ganhou força no Brasil a partir dos anos 2000 e se consolidou como uma das principais mobilizações em torno da saúde feminina. Seu legado também contribuiu para fortalecer outras campanhas de conscientização em saúde, mostrando que informar é um passo fundamental para prevenir complicações e salvar vidas.
O câncer de mama é uma doença que exige atenção, conhecimento e acompanhamento adequado. Nesse contexto, o Outubro Rosa cumpre um papel essencial ao ampliar o acesso à informação de qualidade, esclarecer dúvidas e estimular as mulheres a reconhecerem a importância do cuidado com a própria saúde. Mais do que divulgar uma causa durante um mês, a campanha nos convida a transformar a conscientização em uma atitude permanente.
Conhecer os principais fatores de risco é parte importante desse processo. A idade, especialmente a partir dos 50 anos, o histórico familiar e determinadas alterações genéticas hereditárias estão entre os fatores associados ao desenvolvimento do câncer de mama. Também merecem atenção questões hormonais, o excesso de peso após a menopausa, o consumo de bebidas alcoólicas e o sedentarismo. É fundamental compreender, porém, que a presença desses fatores não significa que a doença necessariamente se desenvolverá. Da mesma forma, mulheres sem fatores de risco conhecidos também podem receber esse diagnóstico.
Por isso, a adoção de hábitos saudáveis deve fazer parte da rotina. A prática regular de atividade física, a manutenção de um peso adequado, uma alimentação equilibrada e a redução do consumo de bebidas alcoólicas contribuem para diminuir o risco. Essas medidas, entretanto, não eliminam completamente a possibilidade de desenvolver a doença e não substituem o acompanhamento de saúde nem os exames recomendados.
Outro aspecto fundamental é conhecer o próprio corpo e estar atenta a alterações nas mamas. O aparecimento de nódulos na mama ou na axila, mudanças no formato, alterações na pele, retração do mamilo e saída espontânea de secreção são sinais que merecem avaliação profissional. É importante lembrar que o câncer de mama nem sempre provoca dor. Por isso, diante de qualquer alteração nova ou persistente, a orientação é procurar atendimento de saúde, sem esperar que outros sintomas apareçam.
O diagnóstico precoce pode ampliar as possibilidades de tratamento e favorecer melhores resultados. Quando a doença é identificada em fases iniciais, há maior possibilidade de tratamentos eficazes e, em muitos casos, de abordagens menos agressivas, preservando a qualidade de vida da paciente. Essa é uma das principais razões pelas quais o rastreamento, realizado em mulheres sem sintomas, tem papel relevante nas estratégias de cuidado.
No Brasil, existem recomendações diferentes sobre a idade de início da mamografia para mulheres sem sintomas e com risco habitual. O Ministério da Saúde recomenda, no âmbito do rastreamento populacional pelo Sistema Único de Saúde, a realização do exame a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia recomendam a mamografia anual dos 40 aos 74 anos. Essas diferenças reforçam a importância de discutir com um profissional de saúde a estratégia mais adequada para cada mulher, considerando as diretrizes adotadas e suas circunstâncias individuais.
O histórico familiar também pode modificar essa orientação. Mulheres com parentes de primeiro grau diagnosticadas com câncer de mama, especialmente em idade jovem, ou com histórico familiar de câncer de ovário podem precisar de avaliação individualizada, início antecipado do rastreamento e, em determinadas situações, exames complementares. É essencial distinguir o rastreamento da investigação diagnóstica: diante de um nódulo, de secreção sanguinolenta pelo mamilo, de retrações ou de outras alterações suspeitas, a mulher deve procurar avaliação médica independentemente da idade, sem aguardar o momento previsto para os exames de rotina.
Apesar da importância dessas medidas, muitas mulheres ainda adiam consultas e exames por medo, insegurança ou dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Nesse cenário, os profissionais têm uma responsabilidade que vai além da orientação clínica. Acolher, escutar, esclarecer dúvidas e apresentar informações de maneira clara e acessível são atitudes fundamentais para reduzir receios e fortalecer a confiança. Também é necessário reconhecer as barreiras práticas enfrentadas por muitas pacientes, como dificuldades de agendamento, deslocamento e acesso aos serviços.
A conscientização só produz resultados efetivos quando está acompanhada de condições reais para o cuidado. Não basta orientar a mulher a realizar exames se ela não consegue agendá-los ou obter acompanhamento após um resultado suspeito. Ampliar o acesso aos serviços de saúde, garantir continuidade assistencial e facilitar o encaminhamento para diagnóstico e tratamento são compromissos indispensáveis para que a campanha se traduza em benefícios concretos.
Quando o diagnóstico de câncer de mama chega, o impacto ultrapassa a dimensão física. Medo, angústia e insegurança podem fazer parte dessa experiência, que exige atenção às necessidades emocionais e sociais da paciente. O acolhimento, o apoio da família, a presença dos amigos e o acompanhamento de uma equipe multiprofissional contribuem para enfrentar as dificuldades do tratamento e preservar a autoestima e a qualidade de vida.
Cuidar de uma mulher com câncer de mama significa enxergá-la para além da doença, respeitando sua história, suas escolhas e suas necessidades. A assistência deve ser pautada pela empatia, pela escuta e pelo respeito, reconhecendo que cada paciente vive essa experiência de maneira particular.
O maior desafio do Outubro Rosa é fazer com que a mobilização de outubro permaneça viva durante os outros onze meses do ano. O cuidado não pode se limitar a campanhas, ações pontuais ou mensagens divulgadas nas redes sociais. Ele precisa estar presente nas consultas regulares, na atenção aos sinais do corpo, na realização dos exames indicados e na busca por atendimento sempre que necessário.
Como médica e como mulher, acredito que cuidar da própria saúde deve ser uma prioridade, e não uma tarefa constantemente adiada. Muitas vezes, as mulheres assumem responsabilidades com a família, o trabalho e as pessoas ao redor e acabam deixando as próprias necessidades em segundo plano. É preciso mudar essa lógica e compreender que cuidar de si também é uma forma de amor e responsabilidade.
O Outubro Rosa nos lembra que informação de qualidade, diagnóstico precoce, acolhimento e acesso ao tratamento podem fazer a diferença na vida de muitas mulheres. Que essa mensagem não se restrinja a um mês, mas se transforme em compromisso diário com a saúde, o bem-estar e a longevidade feminina. Afinal, conscientizar é cuidar, e cuidar deve ser uma prioridade durante todo o ano.
Karina Cury De Marchi é médica infectologista, com residência médica em Infectologia pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP). Atua como responsável pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Hospital de Transição do Grupo CENE Home Care. Também exerce atividade assistencial no Complexo de Doenças Crônicas Transmissíveis da Prefeitura de São José do Rio Preto.
Fonte: sugestão de artigo enviada por PRDA Comunica