As urnas de 4 de outubro entregaram ao campo conservador um Senado bem mais favorável do que o atual. O PL elegeu 19 dos 54 senadores em disputa, somará 28 cadeiras a partir de 2027, e será a maior bancada partidária da Casa desde a Constituição de 1988, superando o recorde de 27 senadores do MDB, em 1999. A pergunta que domina Brasília desde a apuração é se esse avanço basta para destravar uma das principais promessas da direita: o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
A resposta curta, segundo as contagens publicadas até agora, é que ainda não. A direita cresceu, controla mais espaços, mas a Constituição exige dois terços do Senado, ou 54 dos 81 votos, para condenar um ministro do STF. Nenhuma das classificações divulgadas coloca o campo conservador sozinho nesse patamar.
Quem entra e quem fica
Foram renovadas 54 das 81 cadeiras, duas por estado e pelo Distrito Federal. Pelas contas do Poder360, os eleitos se dividem em 33 de direita, 19 de esquerda e 2 de centro. Os 27 senadores que continuam, eleitos em 2022 e com mandato até 2031, somam 16 de direita, 8 de esquerda e 3 de centro. O resultado é um Senado com 49 senadores de direita, 27 de esquerda e 5 de centro.
Entre os novos nomes, a bancada conservadora ganha figuras de projeção nacional: Michelle Bolsonaro, eleita pelo Distrito Federal, e Carlos Bolsonaro, por Santa Catarina, além de André do Prado, por São Paulo. O PT elegeu 6 senadores e manteve 9 cadeiras, o MDB elegeu 7, e o Novo ampliou sua presença com três senadores. O PSD, que tinha 15 senadores, cai para 5, o que reduz um bloco tradicionalmente decisivo para as votações do Senado. Em Rondônia, Fernando Máximo e Bruno Scheid, ambos do PL, foram eleitos.
O número exato de senadores de direita varia conforme o critério de cada levantamento. A cientista política Beatriz Rey, da Universidade de Lisboa, contou 44 senadores de direita bolsonarista em análise divulgada pela BBC News Brasil, contra 24 de esquerda e 13 independentes. A Gazeta do Povo calcula ao menos 45 senadores de direita, somando PL, Novo, PP, Republicanos e PSDB. O Times Brasil soma 48 entre direita e centro-direita, e o Poder360 chega a 49.
O que cada número permite
Os três patamares que importam no Senado são conhecidos. Para aprovar projetos de lei, basta a maioria dos presentes, com quórum mínimo de 41 senadores. Para emendas à Constituição, são necessários 49 votos, o equivalente a três quintos. Para condenar um ministro do STF em processo de crime de responsabilidade, são necessários 54.
Com 49 votos, na contagem mais ampla, a direita já teria base para aprovar PECs e ganharia peso na distribuição das comissões. Mas, para a condenação, faltariam cinco votos. Na contagem mais restrita, de 44, faltariam dez. Segundo o Times Brasil, a direita e a centro-direita ficariam seis votos abaixo do necessário.
O que a nova bancada já sinaliza
O principal indicador de ânimo vem de um levantamento do Times Brasil com os eleitos: 31 dos 35 senadores que responderam à pergunta, ou 88,6%, afirmaram apoiar o impeachment de ministros do STF. Um dos 54 eleitos, Evair de Melo, não havia sido consultado. A BBC News Brasil registra ainda que há pelo menos 109 pedidos de impeachment contra ministros do Supremo à espera de análise.
O quadro é bem diferente do de agosto de 2025, quando a CNN Brasil contabilizava 41 senadores a favor de um processo contra Alexandre de Moraes, 21 indefinidos e 19 contrários. Naquela contagem, os senadores com mandato até 2026 eram o principal obstáculo, com 44% de apoio, contra 63% entre os que têm mandato até 2030. Com a renovação, a Casa tende a ficar mais alinhada à pauta.
Os obstáculos que sobram
O primeiro é o regimental. Cabe ao presidente do Senado receber a denúncia e decidir se ela segue adiante, e esse poder foi, até aqui, o principal freio ao tema. O comando da Casa será renovado na abertura da nova legislatura, em fevereiro de 2027, e a maior bancada partidária tende a reivindicar peso nessa escolha. Quem ocupar a cadeira definirá o ritmo de qualquer processo.
O segundo é aritmético. Mesmo com a vitória ampla, a direita depende de votos do centro para chegar a 54. Os votos que podem fazer a diferença estão em legendas como PSD, MDB e União Brasil, tradicionalmente decisivas nas votações apertadas. O MDB, por exemplo, elegeu 7 senadores, e o PSD encolheu de 15 para 5.
O terceiro é histórico: até hoje, nenhum ministro do Supremo foi destituído por impeachment. Reunir dois terços do Senado para condenar um ministro do Supremo é algo que nenhuma legislatura anterior chegou a fazer.
Leitura do cenário
Para o eleitor conservador, o recado das urnas é claro: o Senado de 2027 será bem mais permeável às suas pautas do que o atual. Isso amplia a capacidade de pautar, de investigar e, na contagem mais ampla, de aprovar emendas constitucionais. Não garante, por si só, a condenação de um ministro do STF. O que as contagens mostram é uma janela de oportunidade que depende de uma negociação política que ainda não começou.
Os números também podem se mover. Senadores eleitos governadores, como Sergio Moro e Cleitinho, deixarão o Senado em janeiro de 2027, e suas vagas passarão aos suplentes. Dois mandatos podem mudar de partido conforme o resultado dos segundos turnos de Acre e do Amazonas, em 25 de outubro, segundo a Gazeta do Povo.
Folha Nobre
