OPINIÃO | Por Redação Folha Nobre
Seis anúncios em cinco semanas, e a Redação do Folha Nobre tem nome para isso: estelionato eleitoral. Em 10 de setembro, Lula sancionou o fim da "taxa das blusinhas". Em 17 de setembro, reajustou o Bolsa Família em 15,04%. Em 25 de setembro, assinou a medida provisória que proíbe as bets. Em 9 de outubro, zerou os tributos federais da gasolina. Em 13 de outubro, abriu o Planalto para um pacote de MEIs e gravou a promessa de um Pé-de-Meia para universitários.
A eleição estava ali, apertada. No primeiro turno, o TSE registrou Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos válidos e Lula com 45,16%. Foi só a derrota parcial nas urnas para o governo lembrar que tem caneta.
Estelionato eleitoral, no sentido político da expressão
Para esta Redação, o nome é estelionato eleitoral, no sentido político da expressão: prometer e entregar benefício com data marcada para o voto, e deixar a conta para depois da apuração.
Bets: dois anos de omissão, nove dias de pressa
As apostas de quota fixa foram liberadas em lei de 2018 e regulamentadas em dezembro de 2023, no governo Lula. O mercado regulado começou a operar em 2025. Em todo esse tempo, o governo conviveu com o mercado. Só a nove dias do primeiro turno descobriu que aquilo "é como um câncer", nas palavras do próprio presidente. Quem acredita em coincidência de calendário pode continuar acreditando.
MEIs: anuncia-se o que ainda não existe
O Planalto montou evento para anunciar R$ 12,6 bilhões em perdão de dívidas para 3,6 milhões de MEIs. Mas o perdão é projeto de lei e só vale "se aprovado". O Pix MEI, de até R$ 5 bilhões e R$ 5 mil por pessoa, o próprio governo diz que está "estudando". O teto de R$ 140 mil em 2028 é projeto parado no Congresso desde junho. O que existe de concreto é um decreto sobre nota fiscal. O resto é manchete. O próprio Lula admitiu que atos de governo em período eleitoral fazem "barulho". Nesse caso, o barulho é o produto.
Pé-de-Meia universitário: a promessa que não fecha
R$ 700 por mês durante dez meses, mais R$ 2,5 mil por ano, para cerca de 1 milhão de universitários. A conta simples é R$ 9,5 mil por aluno, ou cerca de R$ 9,5 bilhões por ano. A estimativa divulgada é de R$ 4,6 bilhões, e ninguém explicou a diferença. É dinheiro prometido para 2027, condicionado à reeleição, com a origem dos recursos escondida atrás da expressão "fundo social do petróleo".
Combustíveis: validade de 30 dias
A desoneração da gasolina subiu de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro, e o diesel importado ganhou mais subvenção. Custo: R$ 5,2 bilhões em 30 dias. O prazo cobre exatamente o segundo turno e vence logo depois. O ministro Dario Durigan jura que não tem relação com a disputa presidencial. Quem acredita nisso que levante a mão.
Blusinhas: do "acordo com a Câmara" ao palanque
A taxa foi criada em 2024, e Lula disse que aceitou os 20% por acordo com a Câmara, embora fosse contra. Nos bastidores, o governo se dividiu: Haddad temia o desgaste com a indústria, enquanto Sidônio Palmeira via ganho eleitoral em retirar a taxa. Em setembro, a retirada foi sancionada. Ganhou o argumento eleitoral.
Bolsa Família: o relógio denuncia
Em 17 de setembro, a 17 dias do primeiro turno, o piso saiu de R$ 600 para R$ 691. Custo: R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027. O governo chama de recomposição da inflação. O que ninguém explica é por que a recomposição, sem reajuste desde 2023, só ficou urgente na reta final da campanha. O reajuste já foi parar no TSE, em ação de Renan Santos pedindo a suspensão do decreto.
A fatura
Um levantamento do Estadão (Gastômetro) soma 46 medidas em R$ 354,3 bilhões, e o total passa de R$ 363 bilhões com as promessas novas. Parte disso não é despesa, é crédito, garantia e dívida perdoada. Mas mesmo descontando tudo, a lista é longa demais para ser acaso. A própria equipe econômica admite R$ 74,6 bilhões de impacto fiscal até o fim de 2027. Esse ano, 2027, aparece em quase todas as medidas. Não por acaso: é quando a conta chega.
Fecho da Redação
Há o que já vale, o que depende do Congresso e o que só existe se Lula ganhar. A Redação do Folha Nobre não pede voto em ninguém. Pede ao eleitor que não leve gato por lebre: quando tudo é anunciado ao mesmo tempo, a poucos dias da urna, o que se oferece é um voto à vista e uma conta parcelada.
Opinião da Redação do Folha Nobre. Foto: Ricardo Stuckert/Lula Oficial (CC BY-SA 4.0).